Folha de S.Paulo

Manifestantes tentam impedir fala de Moro em palestra em Nova York


Protesto durante palestra de Moro em Nova York

Um grupo de manifestantes tentou impedir a fala do juiz Sergio Moro, responsável pela Lava Jato, em uma palestra em Nova York (EUA), nesta segunda-feira.

Moro foi o palestrante principal de um evento na Universidade de Columbia que discutiu a governança e o combate à corrupção no Brasil. Ele foi aplaudido de pé por cerca de metade da plateia quando entrou na sala. Mas, logo depois, manifestantes tentaram impedir que ele falasse, acusando-o de ser "tendencioso" em seus julgamentos.

Uma das mulheres do grupo se levantou e começou o protesto dizendo, em inglês, que o evento não iria acontecer. Em seguida, outras pessoas também começaram a se manifestar contra o juiz. Um grupo de brasileiros vestidos de verde e amarelo passou a gritar "fora" para os manifestantes.

"Sergio Moro, um juiz tão questionado, sendo legitimado aqui nessa universidade, é um insulto aos brasileiros", afirmou à Folha a ativista Toya Mileno, 27. A mineira e moradora de Nova York há oito anos foi quem começou o protesto contra Moro na sala do evento.

"As pessoas têm a liberdade de expressão, de pensamento, mas às vezes são mal informadas", disse o juiz para a imprensa sobre o protesto, no fim do evento. "Me parece que até pelo suporte da quase totalidade da população brasileira, as pessoas compreendem que está sendo feito um trabalho imparcial."

Aparentemente constrangido, o juiz aguardou no palco o grupo ser retirado pela polícia da universidade. Antes de o evento começar, cerca de dez estudantes já haviam protestado com cartazes do lado de fora. Para eles, os palestrantes escolhidos mostravam apenas um lado da situação política brasileira atual.

Quando enfim conseguiu começar a falar, o juiz falou por mais de meia hora e explicou didaticamente a operação Lava Jato. Moro leu todo o texto de sua palestra, feita em inglês.

Ele dedicou um bom tempo para explicar o que chamou de "corrupção sistêmica" existente no Brasil, que, segundo ele, "tem impactos na confiança da democracia e da Justiça brasileira".

No final, a palestra foi aberta a perguntas e Moro foi avisado pela imprensa de que Alexandre Moraes seria anunciado como novo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). O juiz reagiu com a expressão "uau" e desejou "boa sorte" a Moraes. "Não esperava ser escolhido".

Moro também foi questionado pela Folha se a morte da ex-primeira dama Marisa Letícia influenciaria de alguma forma seu julgamento na Lava Jato. Ele pediu desculpas e disse que não iria responder à pergunta. "Não acho apropriado", disse. Parte da plateia aplaudiu.

O juiz ainda comentou a foto em que apareceu sorrindo recentemente ao lado de Aécio Neves (PSDB-MG). "Eu estava em um evento público e ele estava ao meu lado, não conversamos sobre a Lava Jato." Durante a palestra, Moro já havia dito que "ninguém foi condenado por sua opinião política, mas por causa do crime que cometeu."

A fala de Moro na Columbia terminou em tom esperançoso. "Espero que daqui alguns anos, a Lava Jato tenha deixado a democracia mais forte no Brasil, e que corrupção seja uma uma lembrança do passado", disse o juiz. A plateia vestida de verde e amarelo apladiu, novamente, de pé.

As palestras sobre a situação atual política brasileira continuam hoje na New School, também em Nova York. Um dos convidados é o procurador da Lava Jato Paulo Roberto Galvão. A presidente do STF, Cármen Lúcia, estava na lista de palestrantes, mas não confirmou sua participação.