Folha de S.Paulo

Pesquisa aponta que medo do crime ampara saída salvacionista no Brasil


O medo é mau conselheiro, diz o ditado. E a insegurança que sempre caminha com ele, indica a história, tende a encorpar o apoio social a teses e medidas autoritárias na busca pela ordem.

De acordo com a pesquisa "Medo da Violência e Apoio ao Autoritarismo no Brasil", o país não foge à regra: quanto mais amedrontada a população, maior a sua propensão a apoiar o autoritarismo —que, vale lembrar, manifesta-se à direita e à esquerda.

Produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estudo explorou o grau de medo da população brasileira a partir 16 situações de violência ou vulnerabilidade.

O resultado foi um índice em que zero é a ausência de medo e 1 é o medo de sofrer todos os tipos de violência descritos aos entrevistados.

Numa média de 0,68, têm-se que mesmo os 25% dos brasileiros que menos sentem medo obtiveram índice de 0,5, enquanto aqueles 25% que mais sentem medo da violência atingiram 0,94. Ou seja, não há no país quem não tenha medo razoável.

"O medo é estruturante das relações sociais. E, numa conjuntura de muitos crimes e desemprego, as pessoas se sentem inseguras e ameaçadas", explica o sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP. "O conservadorismo aparece quando elas não confiam que as instituições e políticas vigentes possam lhes trazer segurança."

No Brasil, essa combinação é dramática. O país é recordista em homicídios, com cerca de 60 mil casos por ano, e apresenta altos índices de criminalidade violenta.

A confiança nas instituições também vai mal: apenas 25% da população confia na polícia; 29%, no Judiciário; 11%, na Presidência da República e 10%, no Congresso, segundo levantamento de 2016 da FGV. Nesse contexto, parece natural a queda no apoio à democracia detectada em setembro por pesquisa Datafolha.

A noção de que a democracia é sempre melhor que outras formas de governo obteve no mês passado a concordância de 56% dos eleitores. Já em dezembro de 2014, a afirmação era apoiada por 66% dos entrevistados.

Mas o ineditismo da pesquisa sobre medo e autoritarismo exige cautelas. Não é possível, por exemplo, estabelecer relação causal do apoio ao autoritarismo com a crise política e econômica.

"O indicador de 8,1 de apoio a posições autoritárias é alto", avalia o cientista social Fernando Abrucio. "Mas as principais análises históricas do país, desde Sérgio Buarque de Holanda, apontam para nossa forte tendência autoritária."

A psicóloga social Maria José Tonelli, professora da FGV, lembra que Sigmund Freud (1856-1939) estudou os mecanismos do medo e da adesão a figuras autoritárias. Segundo ele, a organização social implicaria numa troca: o indivíduo abre mão da liberdade total para receber proteção do Estado. "Essa proteção diminui o impacto do medo na constituição dos sujeitos", explica Tonelli.

"Mas, quando o pacto social deixa de proteger os indivíduos e garantir suas necessidades, eles passam a buscar soluções aparentemente mágicas. É aí que ocorre a adesão a teses totalitárias, sem a mediação da racionalidade", diz.

Ela crê que essa é uma hipótese para a eleição de Donald Trump nos EUA.

MAIS RICOS TÊM MENOR ADESÃO À AGENDA DE DIREITOS

Além do Índice de Propensão ao Apoio a Posições Autoritárias, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública procurou aferir, em sentido oposto, a propensão dos brasileiros ao reconhecimento de uma agenda de direitos civis, humanos e sociais.

Foram elaborados dez enunciados distribuídos em cinco categorias: gênero (papel do feminismo e da população LGBT); raça (racismo e políticas para mitigá-lo); pobreza e desigualdade; laicidade do Estado; e condições prisionais. Os enunciados foram submetidos aos entrevistados pelo Datafolha.

O índice de apoio à agenda de direitos obtido foi de 7,83 —menor que a média de apoio a posições autoritárias (8,1).

Em contraste com o Índice de Propensão ao Apoio a Posições Autoritárias, que se mostrou mais elevado nas classes D/E, o Índice de Propensão ao Apoio à Agenda de Direitos é menos forte entre pessoas da classe A.

Entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos, estrato da classe A, o apoio aos enunciados sobre adoção por casais gays (51%), cotas raciais (59%) e condições prisionais (62%) foi menor que a média.

"Enquanto os pobres querem mais direitos, os ricos veem os direitos com moderação porque têm certo medo da mobilidade social", avalia o cientista social Fernando Abrucio.

Para o sociólogo Sérgio Adorno, o fato de alguns temas terem alta aceitação indica uma cultura política que aposta no conservadorismo mas também acena para mudanças.

O estudo detectou que cada um dos grupos citados nos enunciados (mulheres, gays, negros etc.) apresentou comportamentos distintos, numa fragmentação identitária voltada para agendas específicas, sem constituir uma frente ampla por direitos.

A metodologia de medição do apoio aos direitos, segundo os responsáveis pelo estudo, não é tão consistente quanto a utilizada na mensuração das tendências autoritárias. O índice deve ser tomado como tentativa "contrafactual".