Folha de S.Paulo

Do celibato à confissão, veja as principais diferenças entre católicos e protestantes


A Reforma Protestante, que completa 500 anos em 2017, provocou um racha no cristianismo e abriu espaço para o surgimento de inúmeras denominações.

Sem ignorar a grande diversidade do mundo protestante, a Folha elencou algumas das principais diferenças entre católicos e evangélicos.

Os protestantes não consideram sete dos livros do Antigo Testamento aceito por católicos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus.

A maior parte do Antigo Testamento foi originalmente escrita em hebraico. No século 3 a.C., Ptolomeu 2º do Egito, para engordar sua célebre biblioteca de Alexandria, ordenou a tradução das escrituras para o grego, língua mais "internacional" de sua época. Optou por incluir os sete textos citados acima, possivelmente pelo seu valor histórico. Essa versão acabou sendo adotada pela Igreja Católica.

A leitura de Martinho Lutero, ex-frade que deu início à Reforma Protestante, era de que tais textos não tinham Deus como figura central. A tradição protestante, então, adotou a versão hebraica da Bíblia, com os sete textos a menos.

Segundo Edin Abumanssur, professor de ciência da religião da PUC-SP, "o protestante afirma e crê no sacerdócio universal, isto é, todos são sacerdotes de si e dos irmãos".

A tradição protestante de interpretação da Bíblia permitiu que algumas denominações entendessem que mulheres podem ser ordenadas.

Entendimento que é bem posterior a Lutero: a Igreja Luterana da Alemanha nomeou a primeira pastora na década de 1940.

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil ordena mulheres desde a década de 1970, enquanto a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, que pertence a outra vertente, não aceita o sacerdócio feminino.

Igrejas pentecostais e neopentecostais costumam aceitar o ministério feminino.

O sacramento da confissão do catolicismo foi um dos principais pontos criticados por Lutero, que há meio milênio afixou 95 teses na porta de uma igreja de Wittenberg, na Alemanha.

Para os protestantes, todos os crentes têm "livre acesso a Deus", diz antropóloga Lidice Meyer, professora de ciências da religião da Universidade Mackenzie. Portanto não há necessidade de um intermediário na figura de um sacerdote ou de um padre.

Nas igrejas protestantes, não há uma figura equivalente à do papa. "É comum haver colegiados", conta Abumanssur.

Lidice Meyer destaca três tipos de governança. Nas igrejas de perfil presbiterial, os fiéis elegem um conselho, os presbíteros. Como exemplo, temos a Igreja Presbiteriana.

As congregacionais –entre elas, Igrejas Batistas e Assembleias de Deus– possuem uma estrutura descentralizada em comunidades locais "autônomas".

As episcopais possuem uma estrutura piramidal de governo. São as que mais se assemelham à Igreja Católica, nesse aspecto. Neste mesmo grupo, encontram-se tanto a Luterana e a Anglicana quanto a Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo.

Cerca de oito anos após divulgar suas 95 teses, Lutero se casou com a ex-freira Catarina de Bora. Desde então, nas igrejas protestantes, o casamento não é vetado aos sacerdotes.

Edin Abumanssur diz que, como no protestantismo todos têm acesso direto a Deus, não se aceita a ideia de um sacerdote "separado" do restante da população. Portanto, vida mundana e vida religiosa não se contrapõem.

Antes de Lutero, havia sacerdotes casados na Igreja Católica, diz o sociólogo. O Concílio de Trento, conferência eclesiástica católica convocada em meio a um contexto de contrarreação à Reforma, "definiu de uma vez por todas essa questão".

O celibato do padre católico existe para que ele possa seguir sua vocação e se dedicar exclusivamente à religião.

As imagens e santos têm uma função pedagógica dentro da Igreja Católica, como se indicassem um exemplo a ser seguido, uma inspiração, diz Abumanssur. Nas reformadas, contudo, a visão é de que essas figuras "podem desviar a devoção".

Meyer conta que a tradição protestante enxerga o culto a imagens e a santos como uma forma de idolatria, ou seja, de que se acaba cultuando as imagens e não a Deus.

Essa rejeição, diz Meyer, só se inicia de fato com João Calvino, posteriormente ao surgimento do luteranismo e do anglicanismo, cujas igrejas não negam por completo a figura dos santos.

Apenas dois sacramentos são aceitos em todo o cristianismo: o batismo e a eucaristia (comunhão e
santa ceia). De acordo com a tradição protestante, são os únicos que constam na Bíblia e que foram instituídos por Jesus Cristo.

Os reformados seguem a máxima "Sola Scriptura", ou seja, "somente a escritura" e, por isso, rejeitam como sacramento instituições que têm origem anterior ou posterior a Cristo, como é caso do matrimônio, da crisma, da penitência (confissão), da ordem e da unção dos enfermos.

Ao todo, são sete os sacramentos católicos.

Nas igrejas Batistas e pentecostais, o batismo é feito por imersão, ou seja, o fiel é mergulhado em um rio ou piscina.

De acordo com a Bíblia, o batismo de Jesus Cristo foi feito no rio Jordão. Essas denominações interpretam que, por se tratar de um lugar com muita água, Cristo foi mergulhado no rio, diz Meyer.

A Igreja Católica e as protestantes históricas seguem uma tradição da aspersão, em que uma pequena quantidade de água é borrifada ou derramada na cabeça do fiel.

Segundo a antropóloga, há registros de batismos efetuados por Pedro e Paulo em lugares onde não havia água em abundância. Entendeu-se que não havia possibilidade de imersão, dando origem a essa tradição.

Na eucaristia católica, em geral somente o padre bebe o vinho, e todos os fiéis tomam a hóstia.

Na Santa Ceia protestante, pão e vinho têm função simbólica e são compartilhados por todos.

Nas igrejas históricas, em geral passa-se pão e um cálice de vinho de mão em mão.

Nas pentecostais, é comum que se passe uma bandeja com vários pedaços de pão e outra com pequenos copos contendo suco de uva, geralmente.

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Diferentemente do que foi informado em versão anterior do texto, a Igreja Universal do Reino de Deus ordena pastoras. O erro foi corrigido.