Folha de S.Paulo

Ex-secretário de Cabral confessa propina, mas nega fraudes na saúde


O ex-secretário de Saúde do Rio Sérgio Côrtes afirmou em interrogatório nesta quarta-feira (8) que recebeu propina do empresário Miguel Iskin. Os dois foram presos na Operação Fatura Exposta, desdobramento da Lava Jato no Estado.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, ele afirmou que recebeu US$ 3 milhões e uma "carteira de ações". Como a Folha revelou em agosto, Côrtes devolveu à Justiça US$ 4,3 milhões depositados nas Bahamas sem firmar colaboração premiada. Ele afirma ser todo o saldo dos recursos recebidos do empresário.

Côrtes é réu em ação penal junto com o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e outras cinco pessoas por supostos desvios de R$ 16 milhões no setor de saúde.

O ex-secretário afirmou que Iskin fez o repasse em 2011 para uma eventual candidatura em 2014, que acabou não se concretizando. Ele disse, porém, que usou os recursos para gastos pessoais, principalmente em viagens.

Côrtes disse que decidiu entrar na política após ser convidado a ocupar o cargo de ministro da Saúde pela ex-presidente Dilma Rousseff. A nomeação acabou não sendo concretizada porque ele não teve apoio do PMDB.

"Isso foi uma grande frustração para mim. Seria o apogeu da minha carreira. Em 2011, falo com ele [Sérgio Cabral] da minha intenção de ser candidato Ele dizia que era importante estar numa estrutura partidária para virar ministro", disse Côrtes.

O ex-secretário disse, porém, que a propina que recebeu não alterou sua atuação no cargo em favor das empresas de Iskin. Ele afirmou apenas que os editais de licitações dos órgãos que dirigia exigiam maior qualidade dos produtos, o que acabava favorecendo as firmas representadas por Iskin.

Ele afirmou que teve a ajuda do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Junior, que indicou a melhor forma de abrir a conta na Suíça. Ela foi criada em nome da mulher do ex-secretário, Verônica Vianna. O ex-secretário disse que ela assinou papéis sem saber a finalidade real.

Côrtes já havia declarado ao Ministério Público Federal que, em razão da Operação Lava Jato, decidiu fechar a conta em nome da mulher e abrir uma com titularidade própria. E com isso os recursos foram transferidos para um banco nas Bahamas.

O procurador Eduardo El Hage, coordenador da Operação Lava jato no Rio, afirmou que o MPF não considera que Côrtes tenha confessado crimes. A Procuradoria considera que os pagamentos ilícitos geraram benefícios diretos ao empresário nas licitações da Secretaria de Saúde.

O ex-secretário disse que recebia propina de Iskin desde quando era médico-residente do Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia). A empresa pagava viagens para congressos no exterior.

Quando ele se tornou diretor do Into, ele passou a exigir passagens em classe executiva e dinheiro vivo para custear os gastos no exterior. Côrtes afirmou ter recebido cerca de R$ 60 mil por ano nesse período.