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    Depoimento

    Britânico mostrou como a mente humana pode ser bizarra

    SUZANA HERCULANO-HOUZEL
    COLUNISTA DA FOLHA

    30/08/2015 21h57

    Conheci os livros de Oliver Sacks em 1992, no primeiro ano da minha pós-graduação. Tinha acabado de me desiludir com a genética molecular: manipulava tubinhos com líquidos transparentes, que talvez contivessem o que eu queria, talvez não.

    Oliver Sacks morreu em Nova York no domingo (30), aos 82 anos, em casa, devido a um câncer . Trabalhou até os últimos dias, segundo sua equipe.

    Ele trabalhava com assuntos que, de tão específicos, ficavam restritos ao laboratório. Foi quando um amigo perguntou se podia me falar de neurociência. Nunca mais reclamei de falta de assunto.

    Os livros de Sacks fizeram parte do começo da minha educação, encontrados logo nas primeiras visitas a livrarias atrás do meu novo interesse. O primeiro que li foi "O Homem que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu".

    Sacks ali criava um novo gênero, que ia muito além dos relatos de casos neurológicos. Ele contava as histórias de seus pacientes em uma linguagem vívida e altamente empática, com um grau de familiaridade que deixava transparecer longuíssimas sessões em seu consultório: como vive um homem que não consegue mais reconhecer o rosto de sua mulher, uma moça que não sabe onde estão suas pernas a não ser que olhe para elas.

    Eram histórias bizarras que não chegavam ao cidadão comum se não tivesse paciente na família. Eram histórias que mostravam quão bizarra pode ser a mente humana, quão frágil é o equilíbrio que chamamos de normalidade.

    Cheguei a ouvir críticas de outros neurocientistas a respeito: Sacks apenas relatava casos, não os investigava ou oferecia explicações, ao contrário do que mais tarde o também neurologista e escritor V. S. Ramachandran viria a fazer, trilhando os passos de Sacks.

    Mas isso não me incomodava. Sacks era um brilhante observador da mente humana, inclusive quando o paciente era ele mesmo (como no livro "Com uma Perna Só"). Que bom que a ciência e a medicina que ele tanto admirava lhe permitiram viver 82 anos entre nós.

    Moacyr Lopes Junior/Folhapress
    Oliver Sacks empalestra em SP
    O neurologista britânico Oliver Sacks em palestra em São Paulo

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