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    Alessandra Orofino

    Estado de suspensão

    20/02/2017 02h00

    Reprodução/Facebook/João Doria
    João Doria pilota Aston Martin no Complexo de Automobilismo de Abu Dhabi
    João Doria pilota Aston Martin no Complexo de Automobilismo de Abu Dhabi

    Os cariocas já viram esse filme: um prefeito carismático (e midiático) ganha as eleições e imediatamente desenvolve um projeto de cidade tão aparentemente sedutor que qualquer crítica passa a ser repudiada como uma tentativa de desviar sua atenção de temas mais importantes.

    No Rio de Janeiro, a história acabou com Eduardo Paes defendendo um candidato-espancador, perdendo no primeiro turno e tendo seus bens congelados pela Justiça. Seu padrinho político exibe trajetória ainda mais espantosa: depois de anos apresentando-se como o incriticável homem que salvaria o Rio da violência, Sérgio Cabral está hoje enclausurado em uma ala de presídio que ele próprio inaugurou, enquanto o Estado agoniza.

    Ficamos tanto tempo sufocados pela falácia que assimila a pressão ao combate –como se pressionar um homem público fosse, forçosamente, combatê-lo– que demoramos para sair de nosso estado de suspensão: suspensão do espírito crítico, da possibilidade de dissidência, da viabilidade do contraditório.

    O estado de suspensão inaugura a exceção do discurso, tornando-o homogêneo e subordinado à escala de prioridades daqueles que orquestraram sua submissão. E antes que me acusem de ver a anulação da crítica apenas quando falo de prefeitos e governadores obcecados com a cidade-empresa e o Estado-corporação, aproveito para lembrar que a esquerda brasileira não é nenhuma estranha ao estado de suspensão. Afinal, em 13 anos de PT, normalizamos a noção de que, em nome de um projeto incontestavelmente importante de inclusão social, não se poderia mais falar quase nada do que ia mal: dos índios sendo massacrados em Belo Monte à Força Nacional massacrando no Complexo da Maré, dos esquemas de corrupção ao tal presidencialismo de coalizão.

    O estado de suspensão costuma ser particularmente cruel quando usado para colocar movimentos identitários no seu "devido lugar": toda vez que um bem-intencionado cidadão diz para uma mulher feminista ou uma ativista do movimento negro que as suas discussões são supérfluas ou que as suas demandas são caricatas, em nome de uma suposta primazia de outros temas mais prementes, é o estado de suspensão que está sendo usado como ferramenta de silenciamento, dessa vez em nome das lutas que não podem esperar.

    E assim perpetuamos a ideia, pretensiosamente enganosa, de que se estivéssemos todos discutindo avidamente o desemprego, a desigualdade, a falta de segurança ou qualquer outra pauta-que-achamos-prioritária, ao invés de perder valiosos posts de Facebook falando sobre racismo ou machismo, o Brasil estaria melhor de se viver.

    Portanto, amigos paulistanos, não repitam nossos erros. João Doria pode ser um prefeito extremamente popular –e saber como ninguém gerenciar uma conta de Facebook. Mas isso não o torna imune a críticas, nem faz de seus críticos crianças mimadas e irresponsáveis que "não sabem elogiar".

    A função da cidadania não é elogiar. É cobrar. É querer mais, e melhor. É travar um debate qualificado, é pressionar sempre e demandar o possível e o impossível. Inclusive, e sobretudo, quando o indivíduo com a caneta na mão goza de apoio e legitimidade. São Paulo é uma cidade fantástica demais para ficar cinza não só em seus muros, mas também em seus discursos. Falemos.

    alessandra orofino

    É economista, cofundadora da Rede Meu Rio e diretora da organização Nossas. Curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas. Escreve às segundas, a cada duas semanas

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