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    Alessandra Orofino

    Melhor forma de esconder alguma coisa é deixá-la à vista de todos

    17/04/2017 02h00

    Fotomontagem
    Prefeito do Rio,Marcelo Crivella; prefeito de São Paulo, João Doria; e o presidente Michel Temer
    Prefeito do Rio,Marcelo Crivella; prefeito de São Paulo, João Doria; e o presidente Michel Temer

    Começou em 2015, quando João Doria era apenas um dos muitos pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo. O governo estadual, comandado por Geraldo Alckmin, pagou nada menos que R$ 1,5 milhão por anúncios veiculados em sete revistas da Doria Editora, ao longo de todo o ano anterior.

    Um só anúncio na revista "Caviar Lifestyle" custou R$ 501 mil aos cofres públicos, mais do que anúncios semelhantes na revista "Época" ou na "Exame". Todas as benesses do governador para com seu apadrinhado político foram feitas de forma absolutamente explícita, transparente.

    Continuou nesse 2017, e com força total. O primeiro sinal foi dado pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Já no primeiro mês de seu governo, ele anunciou o nome de seu filho para a Secretaria da Casa Civil.

    Questionado pela decisão, ele optou por defendê-la publicamente: "Queria mostrar à população do Rio que estamos vivendo um novo tempo. Queria dar a eles o melhor que eu tenho. O melhor que tenho é meu filho." E assim, num passe de mágica, nepotismo passou a ser um ato abnegado de dedicação à causa pública.

    A cara de pau culminou recentemente com a nova estratégia do governo federal para aprovar a reforma da Previdência. Essa semana, o Planalto anunciou a distribuição de verbas de publicidade exclusivamente para veículos de comunicação que aderirem à campanha pela aprovação do pacote.

    E mais: os responsáveis pela indicação dos receptores dessa grana serão os mesmos deputados e senadores que deverão votar na reforma. É um golpe perfeito: em uma só medida autoritária, o governo de Michel Temer cala a boca da mídia e compra os votos da base no Congresso. Tudo às claras, público e publicado, e estritamente dentro da lei.

    Os americanos têm um ditado, atribuído a um livro de Edgar Allan Poe: a melhor forma de esconder alguma coisa é deixá-la à vista de todos.

    No Brasil, a corrupção 2.0 parece estar adotando essa técnica. Para que se preocupar em esconder o uso de recursos públicos para financiar uma campanha política se é possível simplesmente pagar por um anúncio constrangedoramente caro na revista de seu pré-candidato?

    Para que criar cargos fantasmas se é possível apresentar a contratação do próprio filho como um exemplo de dedicação à boa gestão?

    Para que comprar a mídia e o Congresso com malas de dinheiro se é possível declarar que os veículos que aderirem às reformas propostas pelo governo terão "direito" exclusivo a verbas de publicidade?

    Outro dia, estava conversando com amigos nova-iorquinos, da época em que estudei por lá. Eles me diziam, angustiados, que o que mais os chocavam no discurso e na gestão de Donald Trump era a desfaçatez com a qual ele afirmava o que antes não podia ser dito no campo da política eleitoral, pelo menos não de forma tão aberta: o racismo e a misoginia, claro, mas também essa tendência a misturar os negócios da família com a coisa pública.

    Aqui no backyard seguimos pelo mesmo caminho: parece que nossos políticos decidiram que, já que a corrupção está vindo à tona, a melhor coisa a fazer é afirmá-la, abraçá-la, conduzi-la dentro da lei. Junto, é claro, com a misoginia, o racismo, e –ao que parece– a crença de que nós, cidadãs e cidadãos, não estamos prestando atenção.

    alessandra orofino

    É economista, cofundadora da Rede Meu Rio e diretora da organização Nossas. Curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas. Escreve às segundas, a cada duas semanas

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