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    Alessandra Orofino

    O último suspiro do centro

    15/05/2017 02h00

    Ontem, dia 14/5, Emmanuel Macron tomou posse na França. Sua vitória foi celebrada por muitos como o triunfo da moderação sobre o radicalismo.

    Mas um olhar atento para a vitória do centrista revela um diagnóstico bem mais interessante. Para começar, pesquisas realizadas pelos institutos Ipsos e Sopra Steria mostraram que se apenas os eleitores de menos de 35 anos tivessem votado, o segundo turno teria sido entre Mélenchon —o candidato pintado como sendo de extrema-esquerda- e a ultradireita conservadora representada por Marine Le Pen.

    Marine e Mélenchon têm um traço comum: ambos canalizam o voto de protesto, de insurgência contra a própria ideia de democracia representativa, percebida como apenas uma forma de assegurar a transição pacífica das elites no poder. Ambos se colocaram contra o status quo. E o status quo ganhou —mas apenas porque as novas gerações não foram ouvidas. As eleições de 2017 tiveram a maior taxa de abstenção no segundo turno desde as presidenciais de 1969, que ocorreram na esteira dos grandes protestos de Maio de 68. Entre os jovens, a taxa de abstenção foi ainda maior, chegando a inacreditáveis 40%.

    O que salvou a democracia representativa nessas eleições francesas foi a descrença na democracia representativa. Se mais jovens acreditassem no instrumento do voto, é razoável pensar que eles teriam usado esse instrumento para colocar fogo em várias premissas institucionais que formam sua base de sustentação. Fica claro que os atuais mecanismos de escolha democrática de nossos governos estão se esgotando, mesmo no seio de uma das democracias mais antigas do mundo.

    No Brasil, já é de praxe afirmar que as eleições de 2018 estão especialmente favoráveis a um "outsider", um candidato ou candidata que represente politicamente a antipolítica. Com uma diferença: se na França o establishment é decididamente de direita, no Brasil grande parte do establishment é de esquerda, ao menos do ponto de vista estético.

    Por isso mesmo, nossos candidatos a Macron, os empresários e personalidades que estão mexendo seus pauzinhos para apresentarem-se como alternativa razoável aos xenófobos e racistas de plantão, estão muito mais reféns dos discursos conservadores radicais, vistos como mais transgressores do que os mal-articulados discursos radicalmente progressistas. Basta ver como Doria cedeu à pressão do MBL e botou panos quentes na campanha de difamação dirigida ao secretário de Educação, acusado do crime supremo de defender a liberdade de expressão em sala de aula. Nossos possíveis Macrons já estão precisando compor com nossas possíveis Marines, e a campanha nem começou.

    Se na França a democracia fragilizada escapou de ser capturada pela alucinação preconceituosa do Front National, no Brasil o discurso do medo, da exclusão, do racismo e da paranoia já estão se colocando como parte fundamental da vitória de quem quer que seja. Se as esquerdas brasileiras não souberem ir além do acordão —das tentativas de apaziguar um país em chamas- para criar suas próprias versões do voto de protesto, 2018 possivelmente verá a disputa entre algum conservador que encarne uma Marine de quinta categoria e um Macron brasuca com traços de homofobia e misoginia que sua versão francesa, ao menos, não parece possuir.

    alessandra orofino

    É economista, cofundadora da Rede Meu Rio e diretora da organização Nossas. Curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas. Escreve às segundas, a cada duas semanas

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