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    Alessandra Orofino

    O contra-ataque do comum

    26/06/2017 02h00

    Getty Images
    Pesquisadores testaram a 'vacina' a partir das mentiras e verdades sobre o aquecimento global
    Americanos sem grandes empresas ou recursos estão se organizando para diminuir emissões de gases

    Durante dois dias, em Oxford, estive com um grupo de dez pessoas que discutiu o futuro e a governança da geoengenharia: os processos de intervenção intencional no clima do planeta com o objetivo de desacelerar as mudanças climáticas. A tecnologia é surpreendente: hoje, já é possível retirar carbono da atmosfera; em breve, conseguiremos refletir a luz solar através da instalação de megaespelhos na órbita terrestre ou do uso de gases com efeito refletor, esfriando a Terra.

    Por um lado, ambiciosos projetos de geoengenharia podem ser nossa única real tábua de salvação em um planeta cada vez mais afetado pelos hábitos de consumo das elites mundiais. Por outro, suas consequências são difíceis de prever perfeitamente. Por isso mesmo, a aplicação dessas tecnologias deve ser controlada, e preferencialmente regulada ou executada pelos Estados: entidades que podem entrar em acordos multilaterais e responder pelas ações de agentes privados dentro de seus territórios.

    Ou podiam. A saída dos EUA do Acordo de Paris, anunciada no início do mês pelo presidente Trump, forçou a comunidade internacional a olhar para outros agentes como possíveis vetores de avanços no setor. Desde então, líderes empresariais, como o ex-prefeito de Nova York e magnata Michael Bloomberg, têm afirmado seu comprometimento com o Acordo: "Não permitiremos que Washington se interponha no nosso caminho".

    Bloomberg convoca empresas de todos os tamanhos e a própria cidadania a respeitar os compromissos descartados por Trump. Além dele, americanos e americanas sem grandes empresas ou recursos estão se organizando para diminuir suas emissões coletivas de gases.

    Este tipo de contra-ataque do comum -a organização de agentes fora do âmbito público, ou estatal, com o objetivo de resolver problemas prementes que não podem esperar por governos falidos- é cada vez mais frequente, e não só no âmbito da luta contra as mudanças climáticas. Nesta semana, enquanto cientistas, diplomatas e ativistas discutiam geoengenharia na Inglaterra, moradores de Vila Kosmos, região de classe média baixa do Rio, conseguiram "fechar" seu bairro, com autorização da prefeitura: porteiros em quatro guaritas controlam quem entra e sai, por razões de segurança. Com a medida, os moradores assumiram para si uma responsabilidade que não deveria ser do comum, e sim do público.

    É inevitável que quando o público falha -e sobretudo quando essas falhas afetam aspectos fundamentais da vida das pessoas, como a segurança física ou a possibilidade de vida futura- outros agentes intervenham. E a emergência de estruturas de comum para além do alcance e atuação dos Estados é, no geral, para ser celebrada. Nossa cidadania vai muito além da burocracia.

    Exatamente como no caso dos Estados-nação, porém, a questão crucial quando se trata de entender estruturas não-públicas tem a ver com inclusão e exclusão: quem fica de fora da guarita de Vila Kosmos, esse bairro que já é fora da guarita dos espaços ricos do Rio? E quando as mudanças climáticas se acelerarem, quem fica de fora dos esquemas mundiais de alteração do equilíbrio ambiental do planeta? Quem perde e quem ganha quando um grande empresário desafia um chefe de Estado democraticamente eleito, ainda que esse chefe de Estado seja um lunático?

    A questão geracional mais premente do século é de pertencimento: entramos no cada um por si ou ainda acreditamos que só poderemos nadar -ou se afogar- juntos? Da associação de moradores de Vila Kosmos aos escritórios de Nova York, às salas de aula de Oxford, as respostas ainda não chegaram.

    alessandra orofino

    É economista, cofundadora da Rede Meu Rio e diretora da organização Nossas. Curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas. Escreve às segundas, a cada duas semanas

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