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    Alessandra Orofino

    Princípios são chatices que seguimos para que os inimigos também os sigam

    07/08/2017 02h00

    Eduardo Knapp/Folhapress - Marco Bello/Reuters
    Prefeito de São Paulo, João Doria (à esq.); presidente da Venezuela, Nicolás Maduro
    Prefeito de São Paulo, João Doria (à esq.); presidente da Venezuela, Nicolás Maduro

    Antes de ser de esquerda, sou democrata. Não posso defender um regime que utiliza um plebiscito desenhado para esvaziar de poder um Parlamento oposicionista, enquanto fomenta a violência contra manifestantes e encarcera críticos.

    Antes de ser feminista, sou republicana. Não vou coadunar com o escracho irresponsável de homens acusados de abuso, destruindo reputações e dilacerando famílias, sem checagem, sem materialidade, sem profundidade de reflexão, sem presunção de inocência.

    Antes de querer reformas, quero o debate. Não acho normal que justamente a falta de legitimidade democrática seja utilizada como pretexto e oportunidade para entubar mudanças profundas que alteram as vidas de milhões sem uma ampla conversa pública, participativa e cujo resultado seja validado nas urnas.

    Antes de querer eficiência na gestão, quero instituições fortes e capazes de exercer contrapoderes a governos autoritários de qualquer matiz ideológica.

    Nas últimas semanas, PT, PC do B e PSOL saíram em defesa do regime indefensável de Nicolás Maduro. O deputado Marcelo Freixo foi atacado publicamente por supostos abusos contra uma ex-namorada sem checagem, sem que nenhuma outra voz feminina de sua vida corroborasse o comportamento abusivo, sem testemunhas e sem direito à defesa. Nosso governo, passada a votação da denúncia de Janot, reafirmou seu ânimo em dar continuidade às reformas –aquele governo que, como já disse Luciano Huck, "pode ficar para a história do Brasil se souber usar a impopularidade para fazer o que precisa". E João Doria, quando questionado pelo Ministério Público –aquele órgão que tem justamente a prerrogativa de fiscalizar o Executivo– disse que não foi "eleito por promotor" e que, portanto, só tem que prestar contas "ao povo de São Paulo".

    Princípios são aquelas chatices que a gente se força a seguir porque queremos exigir de nossos piores inimigos que eles também as sigam. Não dá para coadunar com ditadores de esquerda e morrer de medo de ditadores de direita. Não dá para escrachar qualquer homem acusado de abuso –durante o caso José Mayer, eu e minhas companheiras de #AgoraÉQueSãoElas checamos a denúncia mil vezes –e não querer que outros homens sejam injustamente acusados. Não dá para permitir que um sincero desejo de reformas atropele nosso apreço por nossa frágil democracia. Nem que populistas de direita desrespeitem as instituições dessa democracia. Porque quando populistas de esquerda fizerem a mesma coisa, a condenação precisará vir de todo o espectro ideológico.

    Antes de termos nossos rótulos e nossas causas, temos um país –democrático, porém desigual, republicano, porém patrimonialista– para defender e para mudar. Precisamos urgentemente recuperar aquelas premissas básicas que permitem que a gente jogue o jogo da política para vencer, mas sabendo que, se perdermos, algumas garantias e salvaguardas permanecerão intactas porque foram pactuadas por todo mundo. E elas são mais importantes do que qualquer resultado.

    alessandra orofino

    É economista, cofundadora da Rede Meu Rio e diretora da organização Nossas. Curadora do blog #AgoraÉQueSãoElas. Escreve às segundas, a cada duas semanas

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