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    Alexandre Schwartsman

    Leda no País das Maravilhas

    20/05/2015 02h00

    Leda Paulani reclama de que eu e Samuel Pessôa tentamos desqualificá-la em nossos comentários à sua entrevista ao "Valor Econômico". Absurdo, porque desnecessário. O excesso de adjetivos e a falta de dados de seu artigo na Folha cumprem essa tarefa com muito mais zelo que qualquer um de nós poderia imprimir.

    A questão central, porém, é outra. Leda, exceção feita ao desequilíbrio das contas externas, parece acreditar que não havia nenhum problema real com a economia brasileira nos últimos anos. Afirmar o contrário seria "terrorismo econômico".

    Ela, por exemplo, não demonstra nenhuma preocupação com a piora das contas fiscais no Brasil a partir de 2009, que culminou com um deficit equivalente a 6,7% do PIB. Em outra entrevista, questiona se é o caso de se inquietar com uma dívida pública que, na média dos últimos quatro anos, ficou em 57% do PIB.

    Deveria ser óbvio, mas essa média poderia representar tanto um país cuja dívida se manteve estável como outro cuja dívida decresceu no período. No entanto, ela representa, na verdade, o Brasil, que viu sua dívida saltar de 52% para 62% do PIB entre 2010 e 2015, ritmo que deveria preocupar qualquer economista que conheça um pouco da nossa história.

    Isto dito, não resta dúvida de que a política econômica adotada no Brasil pelo menos desde 2011 seguiu muito de perto o receituário dos economistas de esquerda.

    Houve forte expansão fiscal, que, como já mostrei aqui, não resultou de redução de tributos, mas da elevação dos gastos: em 2014, o governo federal gastou (a preços de hoje) R$ 210 bilhões a mais do que gastara em 2010. Medido como proporção do produto, trata-se de aumento ao ritmo de 0,7% do PIB por ano, simplesmente o mais rápido desde o início da série, em 1997.

    O BC reduziu a Selic para 7,25% ao ano (pouco menos de 2% ao ano descontada a inflação). Os bancos públicos, liderados pelo BNDES, aumentaram o volume de crédito, no caso deste alimentado por recursos públicos, ou seja, pela elevação da dívida do governo.

    Diga-se, aliás, que a maior parte desses empréstimos serviu como instrumento para um aumento considerável da intervenção estatal na economia, também na linha defendida por Leda e demais economistas de esquerda.

    Por fim, de 2011 a meados de 2013, houve esforço visível, seja pela compra de dólares, seja por medidas administrativas, para desvalorizar a moeda.

    Esse conjunto de políticas –aumento do gasto, corte do juro, desvalorização da moeda, intervencionismo– deu com os burros n'água.

    Não acelerou o crescimento (pelo contrário, há razões para crer que o intervencionismo ajudou a reduzir o ritmo de expansão da produtividade).

    Não conseguiu manter a inflação baixa; apenas inferior ao limite de 6,5% à custa de mais intervenção, seja nos preços administrados, seja na taxa de câmbio a partir de 2013.

    Não evitou a piora das contas externas; ao contrário, acelerou-a ao tentar promover o crescimento da demanda doméstica em uma economia desprovida de qualquer folga de produção.

    Apesar disso, Leda e seus colegas acreditam que estávamos no País das Maravilhas. A mudança recente de política econômica revela, porém, que nem a presidente consegue mais confiar no Chapeleiro Maluco. Passa, e muito, da hora de acordarem do sonho.

    alexandre schwartsman

    Ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, é
    doutor em economia pela Universidade da Califórnia.
    Escreve às quartas, semanalmente.

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