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    Alvaro Costa e Silva

    Você tem fogo?

    22/08/2017 02h00

    Marc Ferrez/Divulgação
    ORG XMIT: 445301_0.tif 1905Fotografia: registro feito em 1905 pelo fotógrafo Marc Ferrez mostra o Canal do Mangue (Foto Marc Ferrez/Divulgação)
    Registro feito em 1905 pelo fotógrafo Marc Ferrez mostra o canal do Mangue, no Rio de Janeiro

    RIO DE JANEIRO - Sabe-se que desde 1860 havia bordéis em pleno funcionamento entre a rua Gomes Freire e o Mangue, na região central da cidade. Ali fervia um intenso caldo cultural: escravos libertos e emigrantes estrangeiros, sobretudo portugueses, italianos, espanhóis, árabes e judeus —uma massa de trabalhadores que logo atraiu as prostitutas.

    Em 1942 a praça Onze foi engolida para a construção da avenida Presidente Vargas, expulsando centenas de famílias e derrubando cerca de 500 prédios. O arraso atingiu em cheio o comércio carnal, nas modalidades de calçada ou de janela. Sorte que tivemos a literatura para fixar o Mangue, zona do agrião no jargão da polícia, antes de seu desaparecimento quase total, pois resta a Vila Mimosa, reimplantada às margens da praça da Bandeira.

    Vinicius de Moraes o cantou na "Balada do Mangue". Marques Rebelo e Antônio Fraga situaram nele a ficção de "Marafa" e "Desabrigo", respectivamente. Manuel Bandeira o historiou em crônica de 1947: "Aquilo era uma cidade dentro da cidade, com muita luz, muito movimento, muita alegria, e quem quisesse conhecer a música brasileira encontrava-a da melhor nos numerosos cafés da rua Laura de Araújo, a grande artéria!". Tanto que Noel Rosa sempre preferiu o Mangue à Lapa. Esta, a partir do início do século 20, abrigou dezenas de pensões e mulheres que perguntavam: "Você tem fogo?".

    Boates suspeitas existem em Copacabana há mais de 100 anos. Pois agora, donos de inferninhos, no polo entre as avenidas Princesa Isabel e Prado Júnior, dizem-se atolados em dívidas, prestes a fechar as portas, sem clientes gringos. Pela qualidade do strip-tease, não vão deixar saudade.

    O certo é que nem a crise do Rio —tratada como guerra do Armagedom— será capaz de exterminar o que o lugar-comum considera a mais velha profissão do mundo.

    alvaro costa e silva

    Trabalha como jornalista desde 1988. Em redações de jornais e revistas cariocas, foi repórter, redator, editor, colunista. Escreve às terças.

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