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    Antonio Delfim Netto

    Estudantes querem espírito crítico que alimente a escolha consciente

    02/11/2016 02h00

    Pedro de Oliveira/Alep
    A estudante Ana Julia Pires Ribeiro participa da sessão da Assembleia Legislativa do Paraná e defende ocupação das escolas
    A estudante Ana Julia Pires Ribeiro faz discurso em sessão da Assembleia Legislativa do Paraná

    Boa parte da juventude está tomando consciência do seu papel no futuro e mostra que não está satisfeita com ele. Recusa-se a aceitar os mecanismos tradicionais de transmissão da cultura que nos trouxeram até aqui, talvez porque tenha dominado fora deles (por conta própria!) um universo tecnológico de comunicação que a colocou na fronteira de um "outro" conhecimento: a possibilidade de uma interação universal instantânea e praticamente ao alcance de todos.

    A notável consequência desse acidente é que ele deu à sociedade uma capacidade de comportamento coletivo espontâneo que depende apenas da vontade do agente, independentemente de autoridade externa. É uma revolução pacífica. Trata-se do mais poderoso solvente dos preconceitos que separam os homens e a reafirmação de que, a despeito de todas as distâncias, talvez nasçamos mesmo, naturalmente, livres e iguais...

    Inteligente e esperançosa, nossa juventude pede apenas uma formação escolar mais interessante e multifacetada para poder exercer o seu espírito crítico. Foi isso que disse (ao lado de exageros), num surpreendente sopro de oxigênio, na Assembleia Legislativa do Paraná, a estudante Ana Júlia Ribeiro, do alto dos seus suficientes 16 anos de idade. Essa batalha não tem a ver com "esquerda" ou "direita" nem tampouco com a idiotia do ensino "neutro". É para a construção de um espírito crítico que alimente a escolha consciente.

    A propósito, é difícil saber o que quer hoje a nossa esquerda. Aparentemente, pede a imediata destruição do Purgatório (o capitalismo "real") para liberar o caminho para o Paraíso (o socialismo "ideal"). Não há, na história do mundo, qualquer apoio factual a tal pretensão! Pelo contrário: toda a experiência mostra que ela tem altíssima probabilidade de nos levar ao Inferno (o socialismo "real"), como ocorreu cada vez que seus antecessores dispuseram do poder absoluto para percorrê-lo.

    A resposta da nossa academia é intrigante: oscila entre o silêncio conivente e a sua aprovação por um "surfismo" intelectual escrachado. Um número desproporcional de nossos "progressistas" está abrigado no Estado e o vê como "causa sui": a causa de si mesmo. Uma verdade que não tem necessidade de nenhuma outra causa e é a possibilidade de existência de todos os outros seres e dela própria!

    Talvez seja bom lembrar que a liberdade e a autorrealização do indivíduo, parte da visão do liberalismo que crê numa ordem espontânea gerada pela propriedade privada garantida pelo Estado, são a mesma marxista, nas quais elas serão realizadas com a morte simultânea da propriedade privada e do Estado! Ambas, comprovadamente, com consequências não desejadas.

    antonio delfim netto

    Ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade
    de São Paulo.
    Escreve às quartas-feiras.

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