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    Antonio Prata

    Como sair da crise

    28/05/2017 02h00

    Adams Carvalho/Folhapress

    Agora que o Brasil chegou ao ralo do porão do terceiro subsolo do quinto alçapão do fundo do poço, ficou claro que lutar contra a corrupção é como tentar enxugar o Atlântico com um Perfex. Ou começamos a pensar fora da caixinha (fora da caixinha dois, pelo menos), ou o país acaba antes da Copa da Rússia –o que seria uma pena diante do timaço que o Tite vem montando. Minha sugestão: socializemos a lambança. Vamos dar a cada cidadão, independentemente da cor, classe, gênero ou religião, as mesmas chances que um deputado, um presidente, senador ou vereador têm para delinquir.

    Joesley Batista contou ter pago R$ 600 milhões em propinas para 1.829 políticos eleitos. O Brasil ficou chocado: quanta gente! Também me choquei: só isso?! E os outros 199.998.71 brasileiros para quem a JBS não deu um vintém ou sequer um acém? Se dividíssemos R$ 600 milhões entre todos, cada compatriota meteria R$ 3,00 no bolso. São duas Skols. Já dá uma brisa. Mas não: nesse país elitista, a bufunfa fica restrita a uma pequena casta. Basta!

    O político é melhor do que nós? Não: o cidadão de bem, quando tem uma chance, com os parcos meios de que dispõe, também consegue dar a sua delinquida. Chega na fila do show e fala pra namorada: espera aqui que eu vou lá na frente ver se conheço alguém. O que é isso senão uma minifraude na concorrência? Ingressos comprados com carteirinha de estudante falsa? Estelionato. A casa de shows provavelmente comprou os alvarás: #tamojunto! Na volta da balada o cidadão é parado no bafômetro, dá R$ 100 pro policial e se não atropelar ninguém a caminho de casa, deita na cama, rouba o wi-fi do vizinho e dá share nuns posts indignados contra a corrupção. Compramos carta de motorista, damos o gato na Net, pirateamos música, filme e notícia de jornal. O que nos difere daqueles sacripantas de Brasília? Uma malinha com R$ 500 mil no estacionamento do shopping, claro. Chega de injustiça!

    Oswald de Andrade que me desculpe, mas não é a antropofagia o que nos une, é a corrupção. Une o rico e o pobre; o flanelinha que cobra pela vaga, privatizando a sarjeta, e a madame que para em fila dupla, privatizando o asfalto. O miserável que constrói no morro e o grileiro que abocanha a Amazônia. A diferença é que o miserável do morro é assassinado pela polícia, enquanto a grilagem da Amazônia é legalizada pelo Congresso. Vamos equalizar a sacanagem?!

    Passar o país a limpo? Mais lógico rolarmos na lama, num glorioso Carnaval: "Da lama ao caos, do caos à lama", uniremos Chico Science e Paulo Maluf, Lampião e Eduardo Cunha e faremos brotar a flor de uma nova civilização onde todos terão igualdade de condições para o ilícito. Só assim construiremos um país justo.

    Construiremos, claro, com esses empreiteiros que estão na cadeia, hiperfaturando a obra e criando um majestoso chafariz de propinas, um jorro que respingará sobre todos, não só sobre alguns, fazendo girar a economia, gerando receitas pro Estado, que investirá novamente na obra e assim por diante, ad infinitum.

    Eis aqui a minha imodesta contribuição para o futuro do Brasil, mistura das teorias de John Maynard Keynes e de Joesley Batista Safadão: o keynesleyianismo. Não, não precisam me agradecer. Prefiro R$ 5 milhões em notas não marcadas, não numeradas e escondidas sob peças de bife ancho –Swift Black Angus, se não for pedir muito.

    antonio prata

    É escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles 'Meio Intelectual, Meio de Esquerda' (editora 34).
    Escreve aos domingos.

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