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    Clóvis Rossi

    De volta ao (pobre) passado

    02/10/2015 07h00

    Era uma vez o tempo em que um certo Luiz Inácio Lula da Silva viajava pelo mundo, vendendo o Brasil potência emergente (e, de quebra, suas empresas) e também uma América Latina em franco crescimento.

    Lula, com aquela facilidade incontrolável de produzir bravatas, chegou a dizer, mais de uma vez, que o século 21 seria o século da América Latina.

    Claro que ainda há tempo, muito tempo, para que a bravata vire realidade, mas, ao terminar o segundo lustro da segunda década do século, a América Latina emergente submerge –e o Brasil mais do qualquer outro da região, com a exceção da falida Venezuela.

    A respeitada ONG Oxfam acaba de soltar o estudo "Privilégios que negam direitos", em que analisa pobreza e desigualdade na região.

    Ricardo Stuckert/Instituto Lula
    Lula e Cristina jantam na Casa Rosada Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    O ex-presidente Lula posa com a presidente Cristina Kirchner diante de um quadro com a foto do marido e antecessor da argentina, Néstor Kirchner (1960-2010), na Casa Rosada, em Buenos Aires

    A certa altura, afirma que cerca de 200 milhões de pessoas estão correndo o risco de voltar à pobreza ante a desaceleração do crescimento econômico da região.

    Que a desaceleração veio para ficar pelo menos por algum tempo, atesta-o a diretora gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde.

    Em conferência organizada pelo Council of the Americas em Washington, Lagarde registrou "a brusca desaceleração", nos últimos anos, da outrora luminosa América Latina (e também dos emergentes, outra grife que perde lustro).

    Voltando à Oxfam. A ONG aponta o que muitos especialistas, especialmente os de esquerda, disseram durante o ciclo de redução da pobreza, sem que o lulopetismo prestasse atenção: a falta de reformas estruturais faz com que os que deixaram de ser pobres fiquem permanentemente ameaçados de recaída.

    Não foi pequena, diga-se, a redução da pobreza na América Latina: caiu de 44% para 28% entre 2002 e 2012.

    É gente que deixou de ganhar até US$ 4 (R$ 16) por dia, limite da pobreza, para começar a receber entre US$ 4 e US$ 10. Não chegou à classe média, para o que precisaria ganhar entre US$ 10 e US$ 50, mas melhorou de vida.

    Agora, a festa está acabando, assinala Rosa Cañete, coordenadora do estudo da Oxfam:

    "Estão muito ameaçados de cair abaixo da linha dos US$ 4 diários, porque, nesse período, não se desenvolveram as políticas necessárias para ter serviços públicos de educação e de saúde de qualidade, que poderiam proteger essas pessoas dos choques externos da economia".

    O estudo da Oxfam não trata apenas desse risco, mas também do obstáculo ao crescimento representado pela obscena desigualdade latino-americana (e o Brasil é, entre os países da região, um dos mais desiguais, se não o mais desigual).

    Na média latino-americana, a renda anual dos bilionários é 4.846 vezes superior à dos 20% mais pobres. O Brasil fica praticamente na média: um bilionário ganha 4.845,8 vezes mais que os 20% mais pobres.

    É um dado eloquente e que demonstra outra falácia, a de que houve redução da desigualdade no Brasil. Pode ter havido entre assalariados, mas não entre a renda do capital e a renda do trabalho, que é a verdadeira obscenidade.

    A propósito de desigualdade: o site Contas Abertas informa que os gastos do governo com juros, só neste ano, ficarão na espetacular altura de R$ 277,3 bilhões, conforme autorização orçamentária.

    Completa: "O montante é semelhante ao que o governo federal desembolsou para o principal programa social, o Bolsa Família. Nos últimos 15 anos, R$ 221,7 bilhões foram destinados para transferência de renda às famílias mais carentes do país".

    Posto de outra forma: o que vai em UM ANO para os poucos milhões que detêm títulos públicos supera o que recebem do governo, DURANTE 15 ANOS, os 42 milhões de pobres entre os pobres, a clientela do Bolsa Família.

    É transferência de renda, sim, mas dos pobres para os ricos.

    clóvis rossi

    É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.

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