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    Clóvis Rossi

    O mal que se faz em nome de Alá

    04/01/2016 16h52

    O Irã (xiita), o país que proporcionalmente promove mais execuções de prisioneiros no mundo, ameaça adotar represálias contra outro grande promotor de execuções, a Arábia Saudita (sunita), por causa do fuzilamento do clérigo (xiita) Nimr Baqr al-Nimr, ao lado de outros 46 acusados de terrorismo.

    Os dois países são tradicionais rivais pela hegemonia no Grande Oriente Médio, mas têm um inimigo comum, o Estado Islâmico (sunita), mas o Irã acusa a Arábia Saudita de inspiradora do EI, por sua interpretação radical do Islã (o wahabismo).

    Aliás, no Ocidente, não são poucos os analistas que consideram o wahabismo a inspiração ideológica do Estado Islâmico.

    A propósito: o Irã divulgou uma montagem de execuções em que aparecem seus autores, uns de preto, a cor que o EI viralizou na internet, e outros de branco, usualmente utilizada na Arábia Saudita. "Há alguma diferença?", perguntava a legenda.

    Essas diferenças e confluências são apenas alguns dos pontos que demonstram o tremendo imbróglio que é o mundo muçulmano, confusão que só pode aumentar agora que as duas principais potências regionais romperam relações.

    A única boa notícia é que não parece haver possibilidades de se chegar a uma nova guerra, como a que, no século 7, opôs árabes e persas (com o triunfo dos primeiros).

    A batalha por influência se faz hoje por outros meios, e a secular disputa entre sunitas e xiitas é apenas uma maneira de incendiar corações, porque o fulcro das divergências é o poder regional, mais que as almas dos fiéis.

    Ainda assim é um complicador adicional a dificultar a tomada de posições pelo Ocidente, que mais teme do que entende o mundo muçulmano.

    Azar dos próprios muçulmanos, em primeiro lugar dos sírios, já massacrados por diferentes atores nos últimos quatro anos. Arábia Saudita e Irã estavam entre os atores envolvidos em um débil ensaio de negociações de paz, que chegara a marcar para dia 25 uma grande reunião em Genebra para tentar dar um passo adiante.

    Agora, "diplomatas ocidentais estão preocupados com o fato de que a brecha entre Arábia Saudita e Irã possa envenenar a atmosfera e afundar as discussões antes mesmo que elas comecem", como escreve Dan de Luce para a revista "Foreign Policy".

    Azar também dos Estados Unidos: "Os EUA são o mais importante fornecedor e aliado militar da Arábia Saudita, e é de se esperar que respaldem a monarquia saudita, se o conflito escalar. Ao mesmo tempo, Obama fez do acordo nuclear com o Irã, e laços potencialmente melhorados, sua mais importante iniciativa em política externa", constata Jay Solomon para o "Wall Street Journal".

    Logo, fica meio amarrado.

    Para fechar o círculo da confusão, há o fato de que o clérigo morto tornou-se proeminente na esteira da chamada Primavera Árabe, que usou como instrumento para atacar a ditadura saudita e pedir reformas.

    Que seja defendido post-mortem pelo Irã, que, tanto como os sauditas, temeu o contágio da Primavera Árabe, só mostra que não sobraram mocinhos na região, se por mocinhos se entender os defensores honestos da democracia.

    clóvis rossi

    É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.

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