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    Clóvis Rossi

    O curioso caso do Joesley Batista judeu

    09/08/2017 17h09

    Gali Tibbon/Associated Press
    O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, durante reunião de seu gabinete
    O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, durante reunião de seu gabinete

    Se serve de consolo para o presidente Michel Temer, informo que surgiu uma espécie de Joesley Batista em um país que aparece com frequência no noticiário mas quase nunca ou nunca por escândalos de corrupção. Refiro-me a Israel.

    O Joesley Batista judeu é também empresário, como o original tapuia, e também tem intimidade com o governante de turno, no caso o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Na verdade, tem intimidade até maior, por ter sido chefe de gabinete do premiê. Chama-se Ari Harow e acaba de tornar-se testemunha (de acusação) em duas investigações a respeito de casos de corrupção que envolvem seu antigo chefe.

    Há mais semelhanças com o Brasil, embora a dimensão do trambique seja substancialmente menor.

    A mídia israelense informa que Harow incriminou Netanyahu no "Caso 2000", como foi batizado pelos investigadores. Pouco imaginativo na comparação com os nomes que usa a Polícia Federal brasileira.

    Trata-se de um suposto acordo entre o premiê e o "publisher" do jornal Yedioth Ahronoth, Arnon Mozes, pelo qual o governo atrapalharia o jornal rival Israel Hayom, em troca de uma cobertura mais favorável do Yedioth.
    Segundo o Canal 2 da TV israelense, Harow teria sido orientado por Netanyahu a levar adiante o acordo entre seu chefe e o editor Mozes.

    Lembra, portanto, a suposta (ou real) indicação de Rodrigo Rocha Loures como interlocutor de Joesley Batista. Mas está abissalmente longe da mala com dinheiro que Rocha Loures recebeu.

    O segundo escândalo, o "Caso 1000", envolve supostos (ou reais) presentes ilícitos de benfeitores bilionários do primeiro-ministro, no valor de "milhares de shekels" (moeda israelense) em charutos e champanhe.
    Não lembra Sérgio Cabral, mas com valores menos suculentos?

    A delação do ex-chefe de gabinete, como a de Joesley Batista, mereceu um prêmio, menos generoso no entanto: deve pegar seis meses de serviços comunitários e uma multa equivalente a US$ 193 mil (R$ 603 mil).
    O fato de os valores envolvidos nem sequer se aproximarem dos que a Lava Jato está revelando não impediu a profunda indignação de parte da mídia israelense.

    O repórter investigativo Gidi Weitz (do Haaretz) escreve que não são os únicos escândalos a sacudir Israel e conclui: "Todos esses casos demonstram uma enraizada cultura de corrupção às custas do público. (...) A corrupção é uma indústria que envolve dezenas de pessoas, incluindo algumas muito bem situadas no governo, pessoas dentro das máquinas partidárias, consultores, conselheiros e lobistas. E, às vezes, pessoas que não são criminosos experimentados em absoluto, mas apenas cidadãos que obedecem às leis mas que se vêem mergulhando na lama porque pensam 'cosi fan tutte' (todos o fazem)".

    Aposto que você já leu algo muito parecido em português.

    Tem mais: charge na página de opinião do Yedioth mostra um aeroporto lotado e um homem dizendo que está lotado como a Lahav 433 (a unidade de investigações de fraudes da polícia, o que seria mais ou menos equivalente à Lava Jato).

    Serve de consolo ou apenas demonstra que o Brasil é mais corrupto?

    clóvis rossi

    É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.

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