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    Friday, 20-Oct-2017 14:04:22 BRST
    Érica Fraga

    Garantir tempo de qualidade para filhos exige mais esforço do que pais admitem

    20/09/2017 02h00

    23.set.2015/AFP
    TOPSHOTS A woman holds a child as migrants wait to board a bus heading to the refugee camp in Opatovac, near the Croatian-Serbian border on September 23, 2015. More than 300,000 migrants have arrived by sea in Greece since January, the majority of whom continue their journey through Macedonia and Serbia on their way to EU countries Hungary and Croatia. AFP PHOTO / STRINGER ORG XMIT: AND004
    Mulher segura criança em campo de refugiados na Croácia

    Uns meses depois do nascimento do meu filho maior, quando me bateu a primeira crise existencial relacionada à maternidade, minha mãe me disse:

    "Nem pense em parar de trabalhar. Daqui a pouco ele faz 15 anos e vai te dar uma banana, como você fez comigo".

    Típico conselho que eu esperaria dela. Pela forma: mamãe é divertida, rápida de raciocínio e direta. Mas também pelo conteúdo: ela parou de trabalhar quando minha irmã maior nasceu e sentiu o baque do ninho vazio e da falta de uma carreira quando crescemos.

    No meu caso, o abalo veio cedo porque, aos 15 anos, ganhei asas e fui estudar e morar em uma cidade maior, a uma hora de casa, para ter acesso a uma educação de mais qualidade.

    Meus pais sempre me apoiaram nesse tipo de empreitada, fazendo enorme esforço financeiro e —só mais tarde percebi— bancando as saudades sem dar muito na pinta para que eu não desanimasse.

    Por serem modelos incríveis, claro que sempre os escutei e, por isso, levo a sério a opinião da minha mãe sobre maternidade e carreira.

    Mas nossa experiência de vida é única. Não será como a dos nossos pais, irmãos ou amigos.

    Ainda que possamos ouvir conselhos e aprender com os erros e acertos alheios, faremos nossas próprias escolhas com base no nosso contexto.

    Com os filhos não é diferente. A ma(pa)ternidade é provavelmente a dimensão das nossas vidas em que menos queremos errar e, para o desespero de muitos de nós, talvez a mais sujeita a riscos e imprevistos.

    Mesmo que, como pais, saibamos que desfecho preferimos, não há um manual para chegar lá. Longe disso. Muitas vezes o que funciona para uma família não faz o menor sentido, ou simplesmente não surte efeito, para outra.

    A beleza disso —e uma das coisas mais fascinantes de sermos pais— é que dá para ir fazendo pequenos ajustes todos os dias, dentro das possibilidades que a vida de cada um oferece.

    Nos meus oito anos de maternidade, desenvolvi meus próprios palpites sobre escolha profissional pós-nascimento dos filhos.

    Um deles é que qualquer decisão —sair do mercado, diminuir o ritmo, continuar trabalhando, investir para desenvolver uma super carreira— é legitima e muito pessoal. Tem de funcionar para a família, e não para os outros.

    Outro é que, embora não pareça saudável se dedicar exclusivamente aos filhos, é também ilusório acreditar que o que importa é a qualidade do tempo e concluir que qualquer meia horinha diária, desde que bem usada, resolve.

    Não resolve por um simples motivo: qualidade implica quantidade de "horas-mãe" e/ou "horas-pai", mas muitos responsáveis parecem preferir ignorar isso.

    Criança demanda atenção, e atenção exige tempo. Tempo para ensiná-los a se cuidar e a dormir, tempo para ouvi-los, tempo para incentivar suas conquistas, tempo para construir laços de afeto e tempo até para orientar outros cuidadores que podem nos auxiliar.

    Até para reter na memória registros da infância dos nossos pequenos —já que 15 anos passam tão rapidamente— precisamos de tempo de vivência com eles.

    Nunca me esqueço de uma grande médica que me contou com tristeza não ter lembranças diretas do desenvolvimento dos filhos. O que sabia lhe havia sido relatado por outras pessoas próximas.

    Ouço também relatos de quem diz ter conciliado bem a criação dos filhos e carreiras bem-sucedidas, mas essas narrativas costumam incluir menções a ajustes em outras esferas da vida.

    Lembro de uma executiva que me disse ter continuado trabalhando muito após a maternidade, mas que isso a levou a quase sumir, por uma década, para os amigos. Noites, finais de semana, feriados e férias eram, na maioria das vezes, dela e do marido com as crianças. Até que as meninas cresceram, se tornaram jovens emocionalmente estáveis, e a vida mudou de novo.

    Essa é uma história. Há muitas outras possíveis. Mas é importante reconhecer que ter filhos —na maioria das vezes— já é uma escolha; uma escolha que envolve grandes consequências.

    érica fraga

    É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação, às quartas.

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