Foi na capa de uma revista "Time" de 1985 que vi, pela primeira vez, uma foto ampliada do vírus da Aids. Tratava-se do anúncio oficial de uma peste que mudaria o comportamento da humanidade pelas próximas décadas.
Para uma garota recém chegada à maioridade, a notícia pesou como um #whynow?, com sérias chances de se transformar num #whyme?
A orgia libertária, vivida pelos que tiveram a sorte de terem sido jovens antes de mim, terminava ali, naquela manchete hedionda. Tudo o que os Dzi e a Leila conquistaram, Sônia e Gal experimentaram, tudo o que pregavam as divas da nouvelle vague foi temperado com o sabor de perigo e medo.
Vi muita gente morrer e adoecer.
Foi foda.
O risco de contaminação do que começou com a pecha de praga gay, logo se confirmou entre heterossexuais. A penetração, o falo, o sangue, o sêmen, o macho, enfim, tornou-se sinônimo de contágio.
Dentre todas as formas de amar, apenas uma resistiu ilesa, como símbolo de pureza e segurança: a do sexo entre mulheres.
Bem menos disseminada do que a homossexualidade masculina, a relação afetiva entre moçoilas foi, pouco a pouco, tornando-se aceita, e até desejada, por aquelas que atingiam a puberdade.
Nos meus tempos de ginásio e científico –olha como eu sou passada– o namoro entre meninas era algo raro, quase inexistente. Mas ele viria a se tornar costume nas gerações subsequentes, que passaram a praticar a fluidez de gêneros no recreio, sem o peso de uma opção sexual definida.
Eu suspeito que muito do conceito de sororidade tenha vindo daí, da canonização pós-Aids do afeto entre moças. De meninas que desenvolveram, na parceria entre iguais, um campo a salvo, independente da aprovação masculina.
A luta pela equiparação de salários, pela legalização do aborto e a condenação do estupro sempre existiram, mas a militância feminista do terceiro milênio é muito mais calcada na solidariedade do que na liberdade sexual que vigorava outrora.
Daí o estranhamento das francesas influentes do "Le Monde", na sua maioria senhoras maduras, que não se reconhecem no repúdio a toda e qualquer forma de assédio e veem traços de puritanismo no #MeToo das americanas.
Num mundo onde imperavam machos alfa como Millôr Fernandes, autor da máxima "o melhor movimento feminista ainda é o dos quadris", musas do calibre de Catherine Deneuve fizeram da sedução uma arma, pleiteando liberdade igual à dos ex-senhores.
Estamos mais puritanos, é vero, não há como negar.
Os meus 52 anos me situam a meio caminho entre as senhoras sexy de 70 e 80, e as garotas pans de 20 e 30. Compreendo o desconforto de Deneuve, pois cresci numa sociedade herdada dela.
Mas, depois de levar uma ou outra surra de consciência e de ver o tarado destruidor de carreiras, Harvey Weinstein, ser afastado do trono em Hollywood, percebo que não se pode desmerecer o caráter solidário do "mexeu com uma, mexeu com todas" global.
Como não suporto mais explicar as mudanças do mundo através do advento das redes sociais, deixo aqui esse palpite: o de que a Aids ajudou a tirar as meninas do closet, santificou suas relações, criou laços de companheirismo, diminuiu a competição e a necessidade de atenção masculina.
Um processo lento que terminou por desembocar num movimento político que pretende agir para além dos grupos de exceção.
Concordo com todos os comentários. Mas, no dia a dia, nada melhor que o arroz com feijão.