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    Francisco Daudt

    A nostalgia como esporte

    06/01/2016 02h00

    Não adianta o doutor me incentivar, eu odeio exercício físico. (Claro, com exceção daqueles que me dão prazer).

    Mas sou praticante de um esporte delicioso: a nostalgia. Exercitar a memória em busca de beleza é mais importante para as coronárias que qualquer aeróbica. E não só para as coronárias, para o cérebro, para mim e para a sociedade. Quando eu compartilho beleza e valores éticos que pareciam perdidos no passado, eu estou trazendo quem me lê para o que importa na vida, e para a resistência ao horror que desce em cascata como a lama de Mariana dessa gente repugnante, eca, de quem eu não quero falar hoje. Eles que vão lamber sabão...

    Vamos viajar!

    Há quem confunda nostalgia com saudosismo. Besteira: saudosismo é querer viver no passado, é lamentoso: "Ah, não se fazem mais ovos como antigamente". Nostalgia é contemplar beleza que mora dentro de nossas mentes, é aproveitar o patrimônio de nosso HD, beleza que nós possuímos! Meu amigo Carlos Süssekind dizia diante dessa onda de autoajuda: "Não entendo esse negócio de viver o presente. Eu vivo no passado e no futuro, e é dele que meu presente é feito". De fato, quem vive só no presente é quem tem alzheimer. E os lesados de maconha, claro.

    Eu estou encharcado de nostalgia: estive, neste fim de ano, no Porto (museu dos anos 1950), em Berlim e em Munique (prenhes de história), e para piorar estou lendo "A Noite do Meu Bem", do Ruy Castro (e, como carioca da época, conheci todo mundo!).

    Você pode imaginar o encantamento que foi ver que poesia não precisava de rima? "Duas contas", a música de Garoto, é assim: "Seus olhos / são duas contas pequeninas / qual duas pedras preciosas / que brilham mais que o luar".

    Eu não estou nem aí para a pessoa política do Chico Buarque, ele escreveu: "A sua lembrança me dói tanto / eu canto pra ver / se espanto esse mal". E mais: "Saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão". Obrigado, Chico, por uma das 300 pessoas que você é, aquela que eu amo (a despeito de umas outras). Minha relação mental com Chico é meu ícone de ambivalência, afinal o F. Scott Fitzgerald disse que inteligente é aquele capaz de abrigar duas ideias opostas na cabeça.

    Minha primeira lição de hipocrisia foi aos seis anos: Getúlio havia se suicidado de manhã,

    E o MPB-4 que só cantava em uníssono? Eu me perguntava, mas por que precisam ser quatro, então? Mas aí eles cantaram "Canto triste" (Edu Lobo e Vinícius) a capela, com arranjo do Oscar Castro Neves, e eu os abençoei para sempre: "Porque foste a primavera em minha vida..." Precisa mais? Obrigado, Vinícius. E por que você tinha que escrever que "fez-se do amigo próximo o distante, fez-se da vida uma aventura errante"? Quer me matar, desgraçado?

    É, em matéria de Memória, quem tinha razão era o Drummond: "As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão, mas as coisas findas, muito mais que lindas... essas ficarão".

    www.franciscodaudt.com.br

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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