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    Francisco Daudt

    Banalidade do mal

    17/02/2016 02h00

    Verão de 1918, meu pai tinha 13 anos e a gripe espanhola assolava o mundo. Pense no Holocausto, multiplique por oito, adicione dois milhões e terá o número de mortos causados por ela: 50 milhões no planeta.

    Ele via carroças da prefeitura transportando os cadáveres empilhados e ouvia histórias de famílias que imploravam para levarem seus mortos, já há cinco dias na sala, fedendo de podres. Os carroceiros negavam, estavam lotados. As famílias então suplicavam por uma troca: um defunto recente pelo que tinham em casa. Assim, o corpo de um completo desconhecido era instalado no meio da sala para que o corpo apodrecido do parente pudesse ser levado pela carroça.

    Meu pai contava que as iniciais PDF (Prefeitura do Distrito Federal) das carroças eram, por isso, interpretadas como de "Prefeitura do Defunto Fresco".

    Era a banalidade do mal. Eles estavam acostumados.

    Quando a microcefalia provavelmente causada pelo vírus da zika começou a se alastrar no Brasil, dei-me conta de como estamos acostumados com o mal, de como os horrores não nos afetam mais. Centenas de filhos incapacitados pelo resto da vida, e incapacitando seus familiares que teriam que mantê-los vivos, como vegetais demandantes, vidas sem nenhum propósito aprisionando adultos a elas, numa servidão sem sentido... O horror! O horror!

    Pensar que, para alguns, o horror do aborto pode ser maior que o horror de criar um feto microcéfalo e condenar centenas (esperemos que não sejam milhares ou milhões) de mulheres e homens a servir de sustento a vegetais humanos dá a dimensão do que os dirigentes têm como prioridade: a hipocrisia acima do bem do povo.

    A reação do governo foi fraca, para dizer o mínimo, sobretudo em comparação com a OMS: lá, decretaram emergência MUNDIAL. O primeiro caso de microcefalia nos EUA produziu um pronunciamento do presidente Obama que dava dimensão à gravidade de como eles percebiam a coisa.

    Isso me mostrou que o que causa reação é o contraste: se você vive na lama, o que é mais uma ferida para um pobre leproso? Ele nem nota.

    Um amigo me diz que cirurgia plástica é pior que lepra, pois a lepra deforma aos poucos, e a plástica deforma no dia seguinte.

    Esta é a base da teoria da tolerância zero: nela, qualquer transgressão provocará contraste, será notada imediatamente, caso contrário, você se acostuma.

    Nós vivemos dentro de uma enxurrada de denúncias, dentro de uma avalanche de lama. Tendemos à insensibilidade ao horror. Ainda que a Lava Jato seja nosso melhor reality show, podemos ficar insensíveis às monstruosidades que ela traz à tona. Podemos ficar acostumados, diferentemente dos americanos.

    Por isso: não aceite uma janela quebrada, pois senão você terá dúzias delas. Não aceite uma pichação, pois amanhã a cidade estará imunda. Não aceite de seu filho uma única transgressão sem puni-lo, pois senão amanhã ele se tornará um mimadinho sem volta.

    Claro, escrevi isso pensando em Hannah Arendt e sua observação dos males do nazismo: Eichmann não era bem um monstro, ele só era um idiota acostumado com o mal. Assim como nós podemos nos tornar.
    As manifestações de rua estão menores por causa disso: estamos nos acostumando com o mal.

    www.franciscodaudt.com.br

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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