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    Francisco Daudt

    Igualdade

    02/03/2016 02h00

    "O que você pretende com seus artigos?", me perguntaram. Pretendo construir um espelho onde eu e o leitor possamos examinar com cuidado aspectos menos óbvios de nossa natureza, seguindo a ideia de Espinoza de que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam.

    Nesse espelho, olho para a igualdade. Ela não existe. Gêmeos idênticos são diferentes. Homens são diferentes de mulheres (é inacreditável que isso precise ser afirmado). Características como inteligência, beleza, talento, garra, força física, musicalidade, caráter etc. são distribuídas de maneira desigual na humanidade. Aliás, que coisa que nos atinge igualmente além da morte (mesmo os impostos são desiguais)? Não há.

    Essas características se distribuem segundo a curva do sino. Tome a inteligência, por exemplo: há um pequeno número de completos retardados; uma crescente quantidade de pessoas com imbecilidade mediana; uma decrescente população mais e mais inteligente; uns 3% de realmente especiais, e uma rabeira minúscula de gênios.

    Claro, existem condições genéricas, como necessidade de comida e de água, mas mesmo essas são distribuídas de maneira singular: a regra da natureza é, portanto, a singularidade.

    Mas se é assim, por que o anseio de igualdade está sempre presente em nossas mentes, sobretudo desde a Revolução Francesa? Ele tem motores inesperados: a inveja, a culpa e a compaixão.

    É curioso pensar que a inveja não tem a igualdade como meta, ela quer apenas que a desigualdade se inverta: eu, que sou pobre, quero ficar rico, e que os ricos de hoje se ferrem, que sejam os pobres de amanhã. Mas imagine se ela se confessa assim? Claro que não, ela se traveste de motivações nobres. É notável: a riqueza incomoda a maioria muito mais do que a pobreza, mostrando que a inveja é muito mais poderosa que a compaixão.

    A compaixão é sentir o sofrimento do outro (cum = junto; passio = sofrimento), e é seguramente o melhor motor do anseio de igualdade. Mas ninguém a traduziu melhor que John Stuart Mill em sua ética utilitarista: quero que sejam felizes todos os que me rodeiam, pois suas infelicidades atrapalham a minha felicidade.

    A culpa é o motor mais comum: desde que Marx disse que os pobres assim o são por culpa dos ricos, que são seus predadores -e essa porcaria de conceito é base para todo o "nós contra eles", senso comum esquerdista que domina o Brasil-, as pessoas anseiam a igualdade chantageadas pela culpa. É uma tristeza, pois isso gera reações, ora fanáticas, ora transgressoras: gente dizendo que você é o demônio insensível e que eles são os pais dos pobres; gente mandando os pobres -e seus "defensores"- se ferrar.

    Então, por qual igualdade ansiamos? É simples, pela alcançável: a proposta da democracia representativa é que todos sejam iguais perante a lei -Curitiba está no bom caminho-, e que haja igualdade de OPORTUNIDADES para todos. Esta última significa que haja EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE.

    Nesse setor, o slogan "Pátria educadora" é apenas mais um escárnio de quem precisa de uma legião de iletrados para se manter no poder.

    www.franciscodaudt.com.br

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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