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    Francisco Daudt

    Homens e mulheres 2

    11/05/2016 02h00

    "Minha filha de quatro anos se comporta como uma mocinha dengosa quando tem um homem adulto por perto, e é tudo voltado para ele: dá risadinhas, provoca, faz charme; quando ele se aproxima, ela foge rindo, mas depois volta; não dá atenção a mais ninguém, é um assombro, pura sedução. Não acontece com meninos, nem com gente de casa. O que é isso?"

    É um software chamado Mulher, fruto da seleção natural, funcionando na cabeça dela: ela está treinando para se fazer desejada pelos homens. Se você reparar, sua dança de acasalamento é diferente da dos homens: ela não parte agressivamente para a conquista mostrando o seu desejo.

    Não, sua estratégia é fazer-se atraente, despertar o desejo no outro, e ele que vá atrás depois.

    O software está buscando algo que um dia será vital para os filhos da mulher: investimento parental. O homem seduzido valoriza a mulher ao ponto de não abandoná-la com o fruto do sexo, e de criar com ela os filhos que terá. Ao investir nas crias, ele também está obedecendo a uma fração do software Homem, mas é um programa que só se liga diante de uma mulher muito valorizada.

    Mulher valorizada: não por acaso, o modo Mulher em operação ali ganha o nome de "Santa" (existe outro modo oposto, chamado "Puta", que se liga em outras horas).

    A "Santa" é provocadora, mas não é fácil: sugere, mas não entrega. Isso aciona uma lei de mercado inscrita em nossas cabeças: estaremos dispostos a pagar alto preço por algo muito desejado, muito atraente. Você já entendeu porque o negócio de tornar uma mulher atraente movimenta bilhões?

    Ele é todo voltado para realçar –ou imitar– condições naturais de atração sexual nas mulheres: juventude, beleza, saúde e fertilidade. Pense nas plásticas, nas tinturas de cabelo, nas maquiagens, nos silicones, nas academias, nas lingeries, no vestuário, nas revistas femininas.

    Maquiagens: de vez em quando alguém tenta um batom/esmalte cor de doença (branco, verde, azul). A moda nunca pega. Os que imitam saúde e desejo (os vários tons de vermelho) nunca saem de moda. E depois dizem que "tudo é cultural, nada é instinto"...

    Competir pelo investimento parental é ser mais atraente do que as outras. Como decorrência, as mulheres são levadas pelo programa a se comparar o tempo todo umas com as outras; eis porque as revistas femininas não trazem uma foto de homem sequer: não interessa, elas querem se medir entre elas.

    O "Santa" necessita de autoestima elevada para ser ligado, por isso uma mulher linda e de classe alta será a mais "inatingível", selecionando os homens de mais alto cacife para conceder-lhe um mínimo acesso.

    O filme "Uma Linda Mulher" é um ótimo exemplo desses programas em operação: Julia Roberts, apesar de linda, tinha autoestima baixa e isso fazia o programa "Puta" funcionar.

    Depois que o Richard Gere lhe dá um banho de loja e a leva à ópera, sua autoestima sobe e ela passa a operar o "Santa": se ofende, chora, se vitimiza ("você me trata como puta"). Tudo intuitivo, nada estudado, tudo natural.

    E os programas nos homens? Ficam para a próxima.

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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