• Colunistas

    Monday, 23-Oct-2017 09:32:02 BRST
    Francisco Daudt

    Uma filosofia prática

    06/07/2016 02h00

    "Amor à sabedoria": o significado original da palavra filosofia não poderia ser mais, ao mesmo tempo, compreensível e encantador. Sabedoria não é um simples saber, é o saber que ajuda na vida, é a compreensão, é o saber virtuoso. E prático. Assim era na Grécia, onde a palavra nasceu. Quando Heráclito de Éfeso disse, há mais de 2.500 anos, "Nenhum homem entra num rio duas vezes", ele enunciava algo de muito sábio e muito prático: vivemos em constante mudança; na segunda vez o rio não será o mesmo, nem o homem será o mesmo.

    Isso faz com que meu título seja redundante. Mas necessário: de lá para cá, a filosofia foi se tornando matéria para estudiosos, muitas vezes incompreensível, usando linguagem acessível para poucos, engravatada e solene, deixou de ser amigável. Ao ponto que meu pai, engenheiro e prático como ele só, implicava comigo dizendo um bordão espanhol: "La filosofia es la ciencia con la cual y sin la cual todo queda exatamente igual".

    Eu ficava triste com isso, pois já via nela encantos. Mas entendia o argumento dele: a filosofia muitas vezes me intimidava como uma moça difícil e inalcançável, que não permite intimidades.

    Quando comecei a estudar psicanálise, me senti muito confortável com Freud: sua prosa elegante e compreensível me atraía. Ele era um médico que falava para leigos "em linguagem de dia de semana", sem o latinório que costuma permear a literatura médica e que sempre me irritou. Você sabe que os médicos têm TRÊS palavras para esconder que não sabem a causa de uma doença? São elas: idiopática, essencial e criptogenética. Isso beira a desonestidade intelectual.

    Pois não é que quando avancei nos estudos de outros psicanalistas a coisa foi piorando? Com os franceses, então, nem se fala. Foi ficando parecido com o que aconteceu com a filosofia: uma linguagem pretensiosa e incompreensível que me remetia a uma tradição brasileira lamentável: se você não compreendeu uma coisa, ela é formidável. Aceite, faça de conta que entendeu e ninguém perceberá sua burrice.

    Mas justamente com a psicanálise? Um conhecimento que visa entender o funcionamento de nossa mente, que visa facilitar a vida para aumentar nossas chances na busca da felicidade? Como ela poderia vir para confundir, se nasceu para explicar? Para nos atrapalhar, se veio para ajudar?

    Inaceitável. Eu vinha da medicina clínica e não aceitava isso nela, traduzia tudo para meus clientes, buscava transparência, sabendo que a falta dela era usada para enrolar pessoas. Não ia embarcar nessa agora.

    Não! A psicanálise tem tudo para ser uma filosofia ao estilo grego: um conhecimento prático para facilitar nossa vida, para nos tirar do atoleiro emocional em que as inevitáveis desventuras da criação nos põem. Quando ela sai do pedestal e se abre a conversar com outras disciplinas, a se enriquecer com elas, mais amigável e verdadeira se torna.

    Hoje, para mim, sua maior amiga é a psicologia evolucionista, que trouxe o fator biológico para ajudar a compreender o humano.

    Foi assim que Freud e Darwin se puseram de acordo: a maior coisa que se aprende na vida é amar e ser amado de volta.

    Prático, não?

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

    Edição impressa

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2017