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    Francisco Daudt

    O que nos faz imbecis?

    14/09/2016 02h03

    "Antes do meu primeiro casamento eu não era solteiro, era imbecil: tinha vergonha do meu desejo, pensava que apresentá-lo a uma moça seria um insulto, que elas deveriam ser tratadas como deusas em pedestais". O relato de consultório, feito por pessoa inteligente, diz: a pessoa pode emburrecer ao longo da vida; essa burrice pode ser revertida.

    Conceituando inteligência como a capacidade de se ligar dois ou mais arquivos de memória (que Richard Dawkins chamou de "memes") para formar terceiros, e de burrice a incapacidade de fazer tal coisa, constatamos que: a) a humanidade tem um predomínio de imbecis; b) erudição não é sinônimo de inteligência (há eruditos cuja cabeça parece um museu de aves empalhadas: são belos exemplares, mas eles não se cruzam nem procriam).

    Fabio Braga - 25.mai.2015/Folhapress
    O biólogo e escritor britânico Richard Dawkins durante evento em São Paulo
    O biólogo e escritor britânico Richard Dawkins durante evento em São Paulo

    Mas se a imbecilidade é variável, o que nos torna imbecis? E o que facilita a inteligência? Há crianças que se destacam pelo brilho, mas dificilmente se vê uma criança imbecil. Elas têm um despudor e uma leviandade de pensamento –e de palavra– que fazem sua inteligência brilhar. Isso lhes dá maleabilidade, agilidade e plasticidade de processamento de ideias, parte fundamental da inteligência.

    Mas isso vai se perder: rapidamente a criança é apresentada ao que é próprio e ao impróprio, ao pensável e ao impensável. Começam a ser construídas cercas eletrificadas em seu cérebro: se ela ousa ultrapassar, toma choque. Na minha infância católica havia o pecado mortal de pensamento: eu iria para o inferno só por pensar, por exemplo, em sacanagem.

    Começa aí a patrulha do pensamento, a "crimideia" orwelliana que vai nos emburrecer. Claro, vem ainda o politicamente correto...

    Para piorar, na adolescência passamos a ter que lidar com assuntos de complexidade enorme, sem o menor preparo para isso: a sexualidade e as preliminares do mundo adulto. É quando começamos a sucumbir ao senso comum, não o dos pais (eles agora são o inimigo), mas o da tribo a que aderimos, no auge de nossa insuficiência: temos que nos homogeneizar, eliminar qualquer traço de diferença com relação a eles. Por reação às nossas inseguranças, adquirimos certezas absolutas: não existe melhor contribuição para a burrice.

    Se não fosse suficiente, o adolescente ainda corre o risco da maconha, das drogas estupefacientes (fazedoras de estúpidos), além de se levar a sério. Levar-se a sério é pior que maconha, para emburrecer.

    Mas crescemos. Aí mora nossa chance: se caminharmos para a independência, poderemos tomar o caminho de recuperar a inteligência.

    Claro, ainda há ciladas pela frente: crenças absolutistas, políticas ou religiosas; novas tribos para aplacar inseguranças; neuroses (que nos aprisionam ao passado); depressão; a atração pelo dramático, que impede a reflexão.

    Fico feliz por trabalhar como um "recuperador de HD": num ambiente seguro, o pensamento redescobre o despudor e a leviandade necessários para rever sua história e livrá-la do lastro de burrice que corrompeu seu processador. Uma vez separados o pensar e o agir, o primeiro escolherá em liberdade uma ação mais inteligente.

    Peter Brown
    Crânio de humano moderno (direita) e do Homo floresiensis, espécie de hominídeo anão
    Crânio de humano moderno (direita) e do Homo floresiensis, espécie de hominídeo anão
    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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