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    Francisco Daudt

    Misoginia: por que alguns homens héteros desprezam as mulheres?

    23/11/2016 02h00

    Diego Padgurschi /Folhapress
    Casal diante de cartazes contra violência sexual em tapume no Masp
    Casal observa, em maio, cartazes contra violência sexual, em tapume no Masp, na avenida Paulista

    Misoginia é magoa, é ressentimento, é inveja, é dor de cotovelo que homem tem de mulher. A palavra de origem grega significa "ódio, aversão, desprezo por mulheres". Só se aplica a homens. Não tem correspondente feminino: misantropia é aversão a gente, não a homens.

    Como entender que héteros sejam os maiores misóginos, se são os que mais as desejam? Para isso precisamos entrar no imaginário do misógino, que exagera traços reais do sexo oposto e a esse exagero se agarra, criando um estereótipo preconceituoso que o consola de suas dificuldades com elas.

    Atenção/"disclaimer": tudo o que vem a seguir faz parte do pensamento misógino –é essencial para compreendê-lo:

    "As mulheres têm uma commodity que interessa muitíssimo aos homens, e sobre ela têm controle: elas não precisam de ereção para fazer sexo, basta-lhes querer (a inveja começa aí, a 'inveja da vulva'); além disso, as moças não gostam tanto de sexo quanto eles, é só ver que, quando decidem, elas lhes 'concedem seus favores sexuais'; na melhor das hipóteses elas 'dão'. Ora, se gostassem também, elas não concederiam, nem seria um favor, nem dariam, elas o desfrutariam igualmente. Pior, elas escolhem a quem vão concedê-lo (o ressentimento começa aí, e se mostra extremado no estupro, o 'roubo da commodity'). Resulta que os homens necessitam demais de algo que elas possuem e controlam. Portanto, eles se tornam compradores desesperados que, por definição, compram mal e pagam caro. Tudo se resume então a uma questão econômica".

    Para o misógino, como se vê, todas as mulheres são prostitutas, só variando de preço: quanto mais honestas, mais caras, só compráveis com casamento e provimento. "Não é à toa que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, ela nasceu com a mulher", dizem eles.

    Se não bastasse o desencontro de interesses (eles querem sexo; elas querem casamento), quando "aceitam pagar caro", casam-se e têm filhos com elas, eles vivem ameaçados com a ideia de que os filhos podem não ser seus –enquanto elas têm certeza de que são as mães (e tome inveja)– e estariam fazendo papel de otários, criando os filhos do Ricardão. Daí vem o ciúme sexual dos homens (o ciúme delas é de prestígio, daquilo em que ele investe: amigos, futebol etc.), que pode enlouquecer o misógino ao ponto do assassinato. "Ah, mas ela já estava separada quando começou a namorar o outro". Sim, vai dizer isso para o misógino: ele imagina que ela já o traía antes.

    A encrenca é que todas essas crenças, aqui apresentadas em forma de caricatura, moram de algum jeito na cabeça de todos os homens: o ser humano é composto das mesmas substâncias, o que varia é a quantidade relativa delas que cada um carrega. Há conflito de interesses entre os sexos: o sexo é mais importante para eles; o casamento é mais importante para elas; elas escolhem com quem se deitam; eles, com quem se casam. É daí que vem a desconfiança.

    Cada um de nós vai ter que lidar com a própria misoginia, e a misoginia de nossos filhos. O melhor jeito que conheço é a pessoalidade dos relacionamentos: ver a pessoa, para além dos rótulos.

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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