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    Francisco Daudt

    Capitalismo com ditadura?

    07/12/2016 02h00

    Associeted Press/AP
    O presidente norte-americano Richard Nixon (à esq.) cumprimenta o líder chinês Mao Tsé-tung durante visita à China, em Pequim. ** FILE** In this Feb 21, 1972 file photo, U.S. President Richard M. Nixon, left, shakes hands with Chinese communist party leader Chairman Mao Zedong during Nixon's groundbreaking trip to China, in Beijing. Forged in absolute secrecy at the height of the Cold War 30 years ago, the diplomatic ties established between the United States and China were meant to balance out the Soviet threat. (AP Photo/File)
    O ex-presidente dos EUA, Richard Nixon cumprimenta o líder chinês Mao Tsé-Tung em 1972

    A morte de Fidel me fez perguntar o que tem significado o socialismo em nossas vidas. Ele toca fundo o coração dos jovens com uma mensagem comovedora: "Vocês são como os pobres do mundo, oprimidos pelos 'adultos poderosos'; o socialismo virá para corrigir essa injustiça".

    Para tanto, o socialismo nega a ideia de uma natureza humana capaz do mal. Nega a ganância, a inveja, o desejo de proeminência social, o altruísmo que espera algum retorno, o desejo de ser indivíduo (todos serão células do corpo socialista). Nega a ambição de autogoverno, de ter iniciativa (toda iniciativa deve vir do Estado), a vontade de dar um futuro melhor para os filhos (o Estado cuidará deles, não você), logo, nega a poupança e a herança.

    O socialismo é uma ideia nascida da inveja (dos "adultos poderosos") para acabar com a inveja.

    Enfim, ele é a coisa mais contrária à natureza humana que jamais se inventou. Mas isso não é problema, pois ele nega a existência de uma natureza humana herdada pela genética, pois crê que nascemos como uma página em branco -tábula rasa- onde a cultura (i.e. o Estado) escreverá os "bons princípios que criarão o novo homem", pleno de virtudes.

    Isso não será fácil. Afinal, o bom selvagem está muito corrompido, coitado, e precisa de uma mão forte para colocá-lo na senda do bem. Por isso é necessária -temporariamente, é claro- a "ditadura do proletariado" que, com seus déspotas esclarecidos, conduzirá a humanidade para "o dia que há de vir" quando o novo homem dispensará até os governos, tão virtuoso e sem vícios será, e tudo funcionará sem dor: o comunismo, finalmente.

    Com cem anos de socialismo real, nota-se que "o novo homem" ainda não apareceu, que chato, é necessário mais um tempinho da mão forte do Estado, sabe? "Ah, é que o socialismo real não é O Socialismo". Ahn, bom...

    Outro probleminha foi só terem produzido miséria. E isso em todos os lugares do mundo onde o socialismo operou/opera.

    Foi aí que a China resolveu inventar o capitalismo com ditadura. "Mas por que o capitalismo, se ele é o oposto do que Marx pregou?" Porque o capitalismo sabe da existência da natureza humana e seus defeitos, aqueles do início. E a usa como no judô: uma força para produzir riqueza. Foi com ele que, a partir da Revolução Industrial, a população mundial saltou dos eternos 500 milhões para os atuais 7,5 bilhões -em 300 anos!

    Na China, querem o bônus -a prosperidade-, mas não querem o ônus, essa coisa chata de democracia representativa que faz o capitalismo evoluir, civilizando sua natural selvageria. Capitalismo sim, mas com os velhos ditadores -que ainda têm a cara de pau de se dizer comunistas. Para a sobrevivência do socialismo (?), eles inventaram o capitalismo com ditadura.

    Esperam que a massa (que o capitalismo costuma transformar em indivíduos) se submeterá ao totalitarismo, que tolerará taxação sem representação.

    Isso não deu certo na América do Norte de 1776.

    Era o caso de lhes fazer a pergunta do Garrincha: "Os senhores já combinaram isso com os russos?"

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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