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    Francisco Daudt

    Nascer homossexual deixa crianças vulneráveis a encrencas de criação

    01/03/2017 02h00

    Estevam Avellar/Globo
    Mateus Solano interpreta o personagem Félix em cena da novela 'Amor à Vida
    Mateus Solano interpretou o personagem gay Félix na novela 'Amor à Vida'

    Há 20 anos o diretor de teatro Luís Antônio Martinez Corrêa, irmão do Zé Celso, foi assassinado por um amante hétero. O autor Aguinaldo Silva perguntou-se por que ele tinha que ir atrás de um hétero e se pôr em risco assim, por que não buscou outro gay?

    A resposta é simples e complexa: o objeto de seu desejo teria que ser hétero, nenhum gay acenderia a mesma chama.

    Aqui termina a parte simples da resposta, e ela passa a ser genérica. É quase um clichê dizer que os gays são cismados com os héteros, tanto quanto que eles são grudados em suas mães. Mas creio ser uma história ótima para ilustrar como o complexo de Édipo marca nosso desejo para sempre.

    Mateus Solano como Félix, e Antônio Fagundes como seu pai, César, na novela "Amor à Vida", retrataram muito bem essa trajetória clichê de quem nasce gay (sim, nasce gay; jamais "opta" por ser gay): um pai carinhoso com seu filho até o momento em que nota nele os primeiros sinais de efeminamento.

    A partir daí, rejeita-o para sempre, como a querer deletar a vergonha de ter um filho gay. O menino vai passar o resto da vida procurando sucessores do pai que o acolham e lhe corrijam a história.

    A tristeza da coisa é que ele será levado por seu desejo inconsciente a procurar réplicas tão perfeitas do pai, que esses novos héteros fatalmente reproduzirão o acontecido: um primeiro tempo próximo, e até mesmo carinhoso, seguido de uma "descoberta" do desejo homo que os aproximou, o que levará à rejeição.

    Que, na melhor das hipóteses, se dará por afastamento, mas que no extremo —se o hétero tiver uma crise de identidade sexual, como parece ter sido o caso descrito— pode resultar em assassinato.

    De fato, o homicídio mais comum praticado por michês acontece quando eles são acusados de não estarem se prostituindo só por dinheiro, mas porque também gostam...

    O complexo de Édipo, como se vê, consiste em se estar aprisionado a um assunto que originalmente não era nosso, e sim de quem nos criou: o gay dá murro em ponta de faca, querendo ser amado por um hétero, porque seu pai era homofóbico e o rejeitou.

    É triste, mas é verdade, que a psicanálise considerou há até bem pouco tempo a homossexualidade como doença, fazendo uma confusão maligna com outro fato pouco mencionado: nascer gay deixa uma criança vulnerável a encrencas tremendas de criação, que podem deixá-la doente mais tarde.

    Não é exclusividade dela, outras condições também fazem isso: nascer inteligente numa família de imbecis invejosos é altamente arriscado para uma criança, que sempre se sentirá devedora, por se perceber melhor que eles.

    O curioso é que, mesmo quando se livram da doença neurótica e deixam de se apaixonar por réplicas do pai, o objeto do desejo desses homens continua a ser hétero. Apenas agora sem a paixão neurótica, o que lhes permite ser mais realistas e escolher parceiros que, mesmo preferindo mulheres, também são capazes de acolher o amor de outro homem.

    Ou seja, o drama de nossa infância se foi, mas nosso desejo foi marcado por ele para sempre. Isso não é mal, afinal, o desejo é a combinação de nossos instintos com nossa história.

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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