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    Francisco Daudt

    Vivemos em uma competição para ver quem é mais acima-dos-outros

    02/08/2017 02h00

    O marquês de Sade se masturbava em seu quarto, olhos postos no crucifixo acima dele, na parede, a dizer-lhe desafiadoramente: "Me mata, me mata agora, se você existe!" Chegado o orgasmo, gritava em meio a gargalhadas: "Aha! Você não existe!"

    Essa cena poderia ser uma síntese de sua produção literária, talvez de sua vida: ele sempre foi um inimigo fiel e devoto do seu Acima-de-mim. O marquês se dedicou eternamente a renegá-lo, a imaginar qual insulto poderia ser pior para escarnecê-lo, qual ultraje conseguiria seduzir mais seus leitores para o culto de amor e ódio a essa Nêmesis que consumiu sua existência.

    O Acima-de-mim é uma tradução possível para o alemão "das Über-ich", termo alemão criado por Freud para uma das três instâncias da mente, que conhecemos como Superego (as outras são "das Ich" e "das Es" –o Eu e o Algo-em-mim, conhecidas como o Ego e o Id).

    Volto a tratar do assunto porque sua presença em nossas vidas é muito mais poderosa –e subestimada– do que se percebe, mesmo porque ele, o Acima-de-mim, é em parte inconsciente.

    A parte notada nós conhecemos desde a infância, quando nossos pais diziam: "Meu filho, ouça a voz da consciência". De fato, lá estava ela a nos dizer o que era certo, e como nós andávamos errados.

    Ela funciona como uma constituição e um tribunal portáteis, paradigma da perfeição a nos criticar e a exigir que sigamos seu exemplo, que nos comportemos como se fôssemos ela. E volta e meia nós fazemos isso, ficamos Acima-dos-outros. Basta ver a atividade mais comum no Facebook, o puxão de orelha –para dizer o mínimo– público, com os consequentes rancores e retaliações que essas espinafrações causam.

    Vivemos um momento histórico em que há uma competição acirrada –o tal "nós contra eles"– para ver quem é o mais crítico, mais dono da verdade, mais perfeito e mais Acima-dos-outros. Estamos constantemente afiando nosso juiz interno, emitindo sentenças de morte contra nossos inimigos, acirrando nossos ódios. Tal é o legado do populismo, de dividir o país para conquistar o poder em nome de bons propósitos, que se tornam desmascarados ao mostrar sua face gananciosa.

    Mas o discurso é populista justamente porque atinge o povo com simplorismo, e essa perda de complexidade mora dentro de nós: ela é a fala habitual do Superego.

    De sua posição Acima-de-mim, ele pode-me ser útil, mas também pode ter se tornado um julgador cruel, um sucessor de quem me criou mal, um déspota tão odiento quanto o era para o marquês de Sade, dizendo que só há branco e preto, que, se eu não sou imaculado, então eu não presto.

    Ou seja, um magistrado idiota a quem só me resta odiar/temer/reverenciar, tudo isso junto, numa confusão dos diabos que me emburrece pelo tumulto mental que causa. Como é mais fácil odiar do lado de fora, não há populismo sem inimigo público. Esse é seu truque mais comum. Esse é o estado a que chegamos.

    Mas por que eu estou falando de política, se quero ser conceitual? Porque é de política que se trata: da política que se passa dentro de nossas cabeças. A briga principal é entre o Eu e o Acima-de-mim.

    francisco daudt

    Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros. Escreve às quartas, a cada duas semanas.

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