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    Henrique Meirelles - Euclides Santos Mendes

    Boston contra o medo

    20/04/2013 22h00

    Estava em reunião em Boston, em 2001, quando assisti pela TV aos ataques terroristas do 11 de Setembro.

    Como a instituição que dirigia à época nos EUA tinha operação enorme em Nova York, inclusive diante das Torres Gêmeas, fui para lá imediatamente tomar providências e apoiar os funcionários.

    Num primeiro momento, a economia local parou. Restaurantes estavam vazios, empresas perdiam clientes e grandes instituições de Wall Street pensavam em sair dali.

    Eram prenúncios de decadência urbana com consequências para a economia regional, americana e global. Como membro de duas grandes ONGs que lideravam o esforço comunitário de revitalização de Nova York, participei de reuniões e ações para re-verter a tendência.

    O primeiro movimento importante foi o aparato policial e as autoridades, na mídia, assumindo a responsabilidade pela segurança e transmitindo a sensação de que havia pessoas capazes tomando providências, o que reduziu a sensação de desamparo. O segundo foi a decisão de organizações e pessoas de enfrentar o medo e as razões do medo e mostrar confiança na recuperação.

    O pilar desse processo foi o senso de comunidade e solidariedade não só às vitimas e familiares, mas à cidade, com a consciência de que atitudes individualistas levariam à decadência de Nova York e ao prejuízo de todos.

    Foi fundamental a demonstração inequívoca de que as causas da insegurança estavam sendo resolvidas. Desse movimento participaram profissionais da imprensa, da cultura, dos negócios, do terceiro setor, todos mobilizados contra o maior problema: o medo.

    A grande conquista do ato terrorista, mais que a destruição, é o medo. Ele cria disfunção na sociedade e gera atitudes defensivas destrutivas.

    Mas, assim como o medo é contagioso, também o são a coragem, o enfrentamento do medo e o impulso de combater o risco. Isso foi fundamental na recuperação total e inspiradora de Nova York.

    O mesmo medo e reação solidária vemos agora em Boston, onde estudei, trabalhei e participo de conselhos acadêmicos de universidades. Uma das características da cidade é justamente o forte senso comunitário.

    Nós, que trabalhamos na recuperação das áreas centrais de São Paulo, que enfrentamos os problemas e a violência das grandes cidades brasileiras, podemos olhar para Nova York, Boston e também para a Europa e o Oriente Médio para tirar lições do enfrentamento não só do medo, mas, principalmente, das razões do medo.

    Para isso, é fundamental a ação das autoridades --a demonstração clara de que estão enfrentando os problemas-- e, principalmente, a mobilização da comunidade.

    HENRIQUE MEIRELLES escreve aos domingos nesta coluna.

    henrique meirelles

    Escreveu até maio de 2016

    É presidente do Conselho da J&F. Foi presidente do Banco Central de 2003 a 2010.

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