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    Janio de Freitas

    Na máquina do tempo

    16/07/2013 03h47

    Estamos de volta a 1945.

    A parcela mais lúcida do mundo depressa substituiu, por um sentimento novo, o alívio que as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki trouxeram, ao darem fim naquele ano à Segunda Guerra. A outra face da evidência de que surgira no planeta um superpoder, único e absoluto, foi a percepção esmagadora da impotência unânime do mundo restante diante do poder nuclear exclusivo.

    Einstein, Oppenheimer, que chefiara a criação das bombas, e muitos outros cientistas expressaram a angústia universal em documentos de grandeza extraordinária contra os riscos a que a superarma e a simples vontade do superpoder sujeitavam a humanidade. Muitos cientistas não precisaram identificar-se com a ideologia da União Soviética para ajudá-la a tornar-se também potência nuclear. Era a ideia, que se provou certa, do equilíbrio do terror como a mais alta regra do convívio no mundo.

    Foi um tempo de angústia e coragem.

    Edward Snowden acionou, sem saber, a máquina do tempo. Suas revelações de que o poder americano pode espionar, e espiona, toda a comunicação no planeta relança a parcela mais lúcida do mundo nas percepções dos anos imediatamente sucessivos a 1945.

    A reação fugidia, quase pusilânime, dos governantes de países europeus espionados tem um motivo comum a todos. Não se trata mais de engolir o indigerível em nome da defesa dos ideais democráticos e cristãos do Ocidente. A falácia ficou soterrada sob os escombros do Muro de Berlim. O motivo é a impotência para defender-se do estupro. É a mentira de que têm, ou podem ter, recursos que tornam invioláveis os seus segredos nacionais.

    A criptografia, transformação de sons e de escrita em sinais de códigos, é, no máximo, defesa temporária. Se antes do computador códigos terminavam por ser quebrados, mesmo os mais mirabolantes como a máquina Enigma dos nazistas, hoje a tarefa está facilitada. Os códigos precisam, por isso, ser substituídos com frequência, o que é dificílimo em razão do número de serviços e conexões necessitados de códigos em um governo. E a criptografia tem a deficiência básica de que um código pode ser quebrado sem que seu usuário o perceba.

    É claro que há defesas provisórias e parciais. Mas não há notícia de que ao menos se admita a criação de um sistema de comunicação cibernética que, com toda a certeza, não possa algum dia ser violado por outro sistema. A propósito, pode-se imaginar que resguardos o Irã tenha adotado para o desenvolvimento do seu projeto nuclear, dito pacífico. De repente, não faz muito tempo, o seu sistema de enriquecimento de urânio parou, em pane inexplicada. Agora, no início de suas revelações, Snowden deu a informação de que a pane foi induzida por computadores do governo americano em computadores da central nuclear iraniana.

    A revelação de que as comunicações brasileiras por internet e telefones foram das mais espionadas pelos Estados Unidos corresponde a três prováveis objetivos americanos. A chamada tríplice fronteira, em Foz do Iguaçu, é vista pela segurança americana como área usada pelo terrorismo, mas também São Paulo, por exemplo, está na mira; e informações sobre o pré-sal e sobre projeto nuclear são de interesse geral. Quanto à quantidade de interceptações, somos uma população imensa, como os também muito espionados Índia e Rússia.

    Nem por tudo isso precisamos mergulhar no ridículo, como tantos já se apressam em fazer. O Brasil não se preparou, o Brasil está atrasado 20 anos, o governo devia gastar X e só gastou um décimo na defesa cibernética, e por aí vai o patético. Mesmo que o orçamento da tal defesa fosse farto e todo aplicado, tudo o que aqui se fizesse seria com equipamento estrangeiro, portanto de infidelidade assegurada. E usaria redes estrangeiras: americanas, as mesmas já identificadas como auxiliares da espionagem americana.

    Poupemos o país de gaiatices, que já são muitas.

    janio de freitas

    Colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos e quintas-feiras.

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