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    João Pereira Coutinho

    O futuro traidor

    26/02/2013 03h02

    Anos atrás, quando Ingrid Betancourt foi resgatada da selva colombiana, o Partido Comunista Português recusou-se a saudar o feito. Motivo?

    A sra. Betancourt tinha sido salva pelo presidente Álvaro Uribe das mãos das FARC. E entre Uribe e o "comandante" Enrique, os comunistas lusos não escondiam as suas simpatias.

    Na altura, no jornal "Expresso", ainda perguntei aos camaradas se a sra. Betancourt deveria ser jogada de volta à selva. Sobretudo se se provasse que o resgate tinha sido feito com o intolerável apoio americano. O PCP, essa deliciosa relíquia stalinista que persiste na Europa Ocidental, não chegou a responder.

    Felizmente, vejo com bons olhos que Portugal não é caso único em matéria de atraso político e até intelectual. Era Eça de Queirós quem dizia, com piada, que os brasileiros eram portugueses inchados pelo calor. O que significa que os vícios portugueses, no Brasil, também incham com a temperatura.

    Assim foi com a blogueira cubana que, em visita ao Brasil, foi acusada de mil torpezas por uma parte da esquerda local. Mas, entre todos os insultos, um deles dominou a minha atenção: a sra. Yoani Sánchez denuncia os abusos da ditadura castrista porque existe dinheiro americano por detrás. Ela é, resumindo, uma traidora do seu próprio país.

    A acusação é interessante porque existem vários equívocos nela.

    A primeira, evidente, é imaginar o que diria essa esquerda fanática e pró-castrista se a sra. Yoani Sánchez, sem dinheiro americano
    (como, aliás, parece ser o caso), continuasse as suas críticas ao regime de Havana. Será que assim, descontaminada de qualquer corrupção "imperialista", os críticos que a
    insultaram perdoariam a traição à pátria?

    Obviamente que não. E "obviamente" porque existe um segundo equívoco na acusação, próprio do pensamento totalitário: a ideia funesta de que um país se confunde com um regime que fala em nome do povo.

    Da União Soviética comunista à Alemanha nazista, sem esquecer as atrocidades cometidas por Mao (na China) ou pelo pequeno Fidel (em Cuba), não houve ditador que não tenha cometido esse abuso, digamos, epistemológico: "O Estado sou eu", para citar a famosa frase do absolutista Luís 14. Ou, em alternativa, Cuba são os Castro.

    Acontece que não são. Cuba pertence aos cubanos, atraiçoados por Fidel em 1959. E o mais irônico é que as promessas do ditador eram outras: acabar com o "bordel" de Fulgencio Batista, realizar eleições livres no curto prazo e até, pasme-se, abrir a ilha ao mundo.

    Todos sabemos o resto da história, feito de fuzilamentos no "paredón", presos políticos, restrição das mais básicas liberdades (como a de sair do país) e uma miséria material que os turistas ocidentais, em viagens quase zoológicas, tomam por exótica. De fato, não há nada mais exótico do que visitar seres humanos em cativeiro.

    E quem acredita que essa miséria material se explica com o "embargo americano", das duas, uma: ou é ignorante, ou é simplesmente um fanático. O "embargo americano" existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo (como a própria blogueira o faz). Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano.

    Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe. Economicamente, Cuba falhou como falharam todas as experiências coletivistas da história. Com ou sem embargos.

    Yoani Sánchez é uma traidora dos fabulosos irmãos Castro? Brindo a ela. Como brindo a todos os traidores que lutaram contra todas as ditaduras. E aqui incluo o velhinho PC português, que lutou (e bem) contra a ditadura de Salazar. Mesmo que o tenha feito em nome de uma ditadura moscovita de sentido inverso.

    Porque este é o ponto: no dia em que o meu país for tomado de assalto por um torcionário qualquer, seja ele de esquerda ou de direita, e a democracia deixar de existir em Portugal, agradeço antecipadamente todo o apoio estrangeiro para derrubar esse regime.

    E publicamente declaro: aceito dinheiro brasileiro, armas americanas e até espionagem israelense.

    Nesse dia, eu serei um "traidor da pátria". E com todo o prazer.

    joão pereira coutinho

    Escritor português, é doutor em ciência política.
    Escreve às terças e às sextas.

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