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    Julia Sweig

    Imperfeito, mas histórico

    08/04/2015 02h00

    Aqui estamos: o grande momento que esperávamos, Barack Obama e Raúl Castro vão posar para a foto de família, sentar-se à mesa de conferências, trocar um aperto de mãos e possivelmente ter uma discussão de substância.

    O momento positivo possibilitado pelo anúncio de 17 de dezembro sobre o avanço diplomático, seguido pelo momento negativo da iniciativa de sanções contra a Venezuela, amortece o clima de celebração no encontro no Panamá na Cúpula das Américas.

    Mas não percamos de vista o quanto avançamos.

    A América Latina, especialmente Brasil e Colômbia, levaram Washington (presidentes republicanos e democratas) a tomar nota da natureza absurda e autoisoladora de sua política cubana, e Washington finalmente prestou atenção.

    Cuba trabalhou arduamente para fazer sua agenda ser sinônimo da latino-americana. A história é feita de passos minúsculos e às vezes grandes; logo, por mais imperfeito que seja o momento no Panamá, por mais que o fator Venezuela possa diluir o simbolismo poderoso do momento, não esqueçamos seu significado histórico.

    Cuba será representada não só por seu presidente e seus ministros do Exterior e do Comércio. Desta vez, empresários participarão da Cúpula de empresários, e líderes da sociedade civil cubana farão parte das atividades da sociedade civil que terão lugar lado a lado com os procedimentos governamentais formais.

    Não seja cético. Mantenha a mente aberta: Cuba está mudando e se abrindo e, enquanto o faz, está levando em conta suas próprias políticas e prerrogativas domésticas.

    Como todos os outros países presentes. Uma ilha, sim, mas uma ilha com fronteiras porosas. Uma sociedade e nação moldada pelo mundo que habita e que molda esse mundo. Precisamos resistir ao reflexo de fazer pouco caso da representação cubana no Panamá, enxergando-a como sendo de algum modo previamente traçada e hipercontrolada pelo governo.

    Quando vemos microempresários e autodescritos (ou adorados pela mídia estrangeira) dissidentes e blogueiros comparecendo em peso a uma Cúpula, é preciso valorizar este instantâneo da nova Cuba. É real.

    Mas, depois das fotos e do retorno ao "business as usual", vale formular algumas perguntas.

    Qual é o propósito da Cúpula das Américas? Com a Celac, Unasul, Alba, Caricom, Aliança do Pacífico, o BID e até a OEA e o Conselho de Segurança da ONU oferecendo plataformas para uma agenda multilateral regional, como a América Latina vai focalizar sua voz coletiva? E sobre que questões?

    É lamentável que os EUA tenham definido os problemas de direitos humanos na Venezuela como ameaça à sua segurança, sendo que esse discurso remete aos maus velhos tempos em que se escolhiam vencedores e perdedores com base em afinidade ideológica.

    Mas, levando em conta a probabilidade de Washington continuar, até certo ponto, fora de sintonia, mesmo em situação melhor graças à sua iniciativa em relação a Cuba, meu maior desejo é que esta região encontre um modo de voltar a incluir os EUA em suas discussões.

    Vocês conseguiram com Cuba. Agora vamos para algo maior.

    julia sweig

    Escreveu até maio de 2015

    É pesquisadora-sênior na Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, da Universidade do Texas, em Austin (EUA).

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