Desde a admissão do processo de impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff, o que era uma crise política e econômica profunda transformou-se em caos institucional. A sociedade atônita perde horas de trabalho tentando entender as frequentes reviravoltas que se atropelam na velocidade da luz para, ao final do dia, reforçar sua descrença na política e nas instituições brasileiras.
Ao chegarmos exaustos ao que é, na verdade, a linha de partida –agora o Senado julgará o processo por 180 dias–, uma parte crescente da sociedade já questiona suas antigas convicções de que tudo isso vale a pena em nome de promessas improváveis de estabilidade, resolução da crise e combate à corrupção.
Mas, se não é a população a beneficiada por esse processo tumultuado, quem, até agora, ganhou na esteira do golpe?
Os primeiros ganhadores são os que conseguiram vender caro o seu apoio ao impeachment. Estes serão recompensados com cargos no governo federal, contratos governamentais e fatias maiores no Orçamento público. Afinal, o fisiologismo e a deterioração das contas públicas –pela definição de prioridades questionáveis– são marca registrada dos governos do PMDB. Basta olhar para a situação do Rio de Janeiro.
Tudo indica que o novo pacto de sangue entre o Executivo e a maior parte dos membros do Legislativo a nível federal, com esses últimos sempre propensos a agradar a seus financiadores por meio de pautas-bomba e afins, será muito bem-sucedido em trazer benefícios imediatos para alguns à custa de todos.
No mercado financeiro, podem ser identificados outros beneficiários da volatilidade do processo. O pedido de anulação das sessões de impeachment pelo presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão, por exemplo, apesar de ter durado pouco, rendeu bons ganhos aos que já sabiam ou apostaram primeiro na alta do dólar e na queda na Bovespa.
Na ótima narração de quadrilha do professor Bernardo Guimarães em seu blog nesta Folha, "no 'olha a cobra!, o dólar subiu cerca de 5% e a Bolsa despencou. Não tardou para chegar o 'é mentira!', revertendo a alta do dólar e a queda da Bolsa". Mas, como aponta o professor, o alto grau de incerteza só beneficia os mais informados, elevando o risco para os demais.
De fato, em entrevista ao jornal "Valor Econômico" em 10/5, o integrante do fundo Global Macro do JPMorgan Jakob Tanzmeister respondeu sobre uma possível retomada dos investimentos em ações brasileiras no caso de impeachment:
"(...) Penso que o risco é muito binário, o que torna o país não atraente. Buscamos oportunidades de investimento assimétricas, com mais possibilidade de alta do que baixa. Aqui posso ver muita alta, mas também posso ver significativa queda. (...) Há outras opções com preços mais assimétricos no mundo".
Mesmo que tais investimentos não se transformassem em ganhos para a economia real, a declaração reforça a impressão de que os que estão conseguindo surfar a onda do caos no país cabem no mesmo barco.
Há lugar a bordo também para a meia dúzia de famílias que controlam nossos meios de comunicação, cujos índices de venda e audiência só crescem com o medo e o tumulto institucional.
Laura Carvalho é professora do Departamento de Economia da FEA-USP com doutorado na New School for Social Research (NYC). Escreve às quintas-feiras.