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    Leão Serva

    Parque do Povo está sendo usado por estacionamento que desmontou teatro

    28/08/2017 02h00

    Zanone Fraissat - 6.ago.2016/Folhapress
    Parque do Povo
    Parque do Povo

    O Parque do Povo é um oásis verde assentado entre avenidas de grande movimento no Itaim Bibi. Milhares de motoristas passam em velocidade pela marginal Pinheiros, pela Cidade Jardim ou pela Juscelino Kubitschek e podem nem notar que ali existe uma grande área verde, com pista para corredores e ciclistas, jardins, quadras de esporte e aparelhos de ginástica.

    Enquanto uns cruzam de carro pelo asfalto e outros atravessam o parque a pé, ninguém nota que está se consolidando novamente um uso privado irregular dentro daquela área pública que tanto custou a ser recuperada: o terreno concedido ao Grupo Ventoforte está sendo usado por estacionamento que até desmontou um dos três teatros e derrubou área verde para abrir espaço aos automóveis.

    O parque foi inaugurado em 2008 depois de muitas décadas de disputas judiciais contra invasores que haviam ocupado e "privatizado" terrenos de diferentes órgãos públicos descuidados, como a Caixa Econômica e a Previdência Social (que abandona propriedades em todo o país em vez de vendê-las para abater seu famoso deficit).

    Ali, por trás de uma muralha de outdoors irregulares, que caiu com a lei Cidade Limpa, havia de tudo: uma empresa que explorava campos de futebol, uma favela que crescia consistentemente, bares, uma escola de circo mambembe que alugava espaço para festas caras, um estacionamento caro. E um teatro popular importante no cenário cultural da cidade. Todos se beneficiavam da terra "grátis" que o descaso com a coisa pública propiciava.

    Lenise Pinheiro - 8.out.2004/Folhapress
    Grupo Ventoforte
    Grupo Ventoforte

    Aberto o parque, a área ganhou imediatamente uma grande frequência, como outras poucas na cidade. Foi para ligá-la ao Ibirapuera que a prefeitura criou originalmente a "ciclofaixa de lazer" dominical, que deu mais força às bicicletas na cena paulistana.

    Restam algumas áreas para serem resgatadas, as três separadas do parque por ruas asfaltadas: duas quadras permanecem sem destinação, e uma é usada por um grande estacionamento privado.

    Já o Ventoforte, fundado pelo dramaturgo Ilo Krugli e instalado ali desde os anos 1970, foi beneficiado por concessão pública em reconhecimento à sua importância para a cultura paulistana. Os três galpões usados como teatros ficaram separados do parque por uma cerca viva, com algumas grandes árvores, criando um ambiente harmonioso, perfeito para a criatividade do grupo.

    Numa cidade apressada, poucos talvez tenham notado que recentemente o local mudou radicalmente: o verde deu lugar a um estacionamento e ao aluguel de bicicletas. Um dos três teatros e boa parte do verde foram derrubados para dar espaço aos carros.

    Alguém poderia dizer: o teatro precisa de dinheiro para se sustentar. Mas se Ilo Krugli conseguiu gerar toda sua reconhecida contribuição para a cultura brasileira desde os anos 1970 naquele mesmo local, sem ter estacionamento, o mais provável é que seja um argumento torto, que Krugli nem saiba o que estão fazendo no fundo do teatro.

    Parafraseando um ditado antigo, "o preço da coisa pública é a eterna vigilância". Ainda que pareça sutil, a mudança da destinação cultural original para uma empresa de estacionamentos altera o contrato que a cidade tem com o espaço. São Paulo precisa de cultura e áreas verdes. Os estacionamentos privados não fazem parte desse pacote.

    leão serva

    Ex-secretário de Redação da Folha, jornalista, coautor de 'Como Viver em SP sem Carro', faz pesquisas no Warburg Institute, em Londres, com o apoio da Capes. Escreve às segundas.

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