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    Luciana Coelho

    Heroína sem sal ata trama ácida em 'Orange is the New Black'

    11/08/2013 03h00

    É preciso olhar além da insossa protagonista para ver a graça e o drama de "Orange is the New Black", produção do site por assinatura Netflix que, na atual entressafra, ocupa o posto de série mais comentada das últimas semanas.

    A narrativa da loirinha classe-média Piper Chapman (Taylor Schilling) em uma prisão de segurança mínima de Connecticut (EUA), onde vai parar dez anos depois de ter ajudado a então namorada (Laura Prepon, a Donna de "That 70's Show") a lavar dinheiro para o narcotráfico, funciona como um varal.

    Dele, pendem as histórias bem mais interessantes das moças que a rodeiam (talvez não por acaso, TODAS as outras atrizes têm performances superiores à de Schilling).

    Em uma cena inicial, uma personagem alerta Piper que ali não é "Oz". Ou seja, o espectador não deve esperar clichês de prisão.

    Pois essa promessa é só parcialmente cumprida.

    Divulgação
    A detenta Piper (Taylor Schilling), em cena da série 'Orange Is the New Black', da Netflix
    A detenta Piper (Taylor Schilling), em cena da série 'Orange Is the New Black', da Netflix

    Há frescor na abordagem leve, graças à direção cínica de Jenji Kohan (de "Weeds", a irmã mais velha de "Orange"). Os personagens, porém, não fogem do estereótipo.

    Estão lá a matrona estrangeira, a transexual, a latina gostosa e a barraqueira, a maluca, a digna dama negra, a lésbica junkie, a velha espiritualizada -isso sem chegar aos rasos personagens masculinos.

    Mas, embora se calque em arquétipos batidos, os perfis são bem aproveitados por uma trama que enfatiza, a seu favor, raça, idade, status social e orientação sexual.

    Não à toa, a loirinha bem-criada que deixou a fase maluquete dos 20 para trás em troca de um noivado com um bom moço aos 30 alinhava tudo. A banalidade de Piper, afinal, amplifica a diversidade alheia.

    A história é baseada no livro homônimo de 2010 da hoje ativista e executiva de relações-públicas Piper Kerman, que de fato passou 13 meses em uma prisão de segurança mínima nos EUA.

    Ao transpô-lo à tela, disse Kerman em entrevistas, ela e a diretora Kohan aumentaram a dose de ficção e diluíram o foco entre as colegas de carceragem.

    O contraste criado dá conta de conduzir a série sem tropeços nem lições de moral.

    "Orange" bebe no sexo gráfico de "Girls" e no ecossistema lésbico de "The L Word". Foca sobretudo relações entre mulheres, mas muito mais os laços matriarcais do que os sexuais.

    É também um cutucão em uma classe média entediante e entediada, algo que Kohan escrachava já na abertura de "Weeds" (novamente, aliás, ela recorre à agridoçura de Regina Spektor para o ótimo tema de abertura).

    Embora lançada em lote, a série funciona melhor como novela, sem grande clímax e com seus 13 capítulos fluindo ora mais ora menos. Os melhores momentos são de Kate Mulgrew, genial como a matrona russa Red, chefe da cozinha, e Laverne Cox, a magnética Sophia (personagem e atriz são transexuais).

    Com "Orange", a Netflix deixa claro que não é mais só um site de distribuição de vídeo e avança depressa no terreno das TVs a cabo.

    Alguma coisa eles estão fazendo certo. Em velocidade rara, a segunda temporada da série já está sendo rodada.

    "Orange is the New Black" pode ser assistida on-line no site pago Netflix (www.netflix.com.br)

    luciana coelho

    É editora de 'Mundo' e foi correspondente em Nova York, Genebra e Washington. Escreve às sextas sobre séries de TV.

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