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    Manuel da Costa Pinto

    Livro de cartunista uruguaio cria mundo onírico com humor surrealista

    26/10/2014 02h00

    Pequenas editoras especializadas em quadrinhos e fanzines vêm sendo responsáveis por algumas das iniciativas mais criativas do mercado livreiro. É o caso da Lote 42, fundada em 2012, que acaba de lançar "Desenhos Invisíveis", de Gervasio Troche.

    O próprio cartunista estreou em livro recentemente. O volume, contendo desenhos de seu blog (portroche.blogspot.com), foi publicado na Argentina no ano passado e chega ao Brasil após campanha de "crowdfunding" (financiamento coletivo) —exemplo de como funciona esse circuito independente.

    Gervasio Troche
    Ilustração do livro 'Desenhos Invisíveis’, do cartunista uruguaio Gervasio Troche
    Ilustração do livro 'Desenhos Invisíveis’, do cartunista uruguaio Gervasio Troche

    Troche nasceu em 1976, em Buenos Aires, onde seus pais, uruguaios, haviam se refugiado da ditadura no país de origem. Com o golpe militar na Argentina, no mesmo ano, viveu com a família na França e no México, radicando-se no Uruguai em 1985.

    A experiência de exílio se reflete no lirismo melancólico de "Desenhos Invisíveis". Para traduzir em palavras o conteúdo dessas charges sem palavras, vale dizer que o traço de Troche tem algo das ilusões de ótica do belga Magritte e da linha irônica dos desenhos de Saul Steinberg.

    Do primeiro, além de elementos recorrentes como o chapéu-coco e o guarda-chuva, ele capta o sentido do paradoxo —como nas imagens em que as sombras interagem ou abrem janelas para outra dimensão, como projeções não dos corpos, mas de movimentos virtuais, desejos e angústias.

    Do segundo, exilado como ele, Troche extrai o traçado urbano (a metrópole como pátria do apátrida) e o humor onírico —como no cartum do violinista cujo arco atravessa o peito antes de atingir as cordas do instrumento, ou no balão de gás formado pelo balão de HQ que representa o sonho de seu tripulante.

    Nos desenhos de Troche, convenções gráficas (um facho de luz, notas musicais) passam a ser coisas entre coisas. E a linha, ao deixar de ser abstração mental para fazer parte do mundo natural, liberta os objetos de sua fixidez, violando as limitações do espaço físico. Janelas que despregam da parede carregando seus moradores: haveria metáfora melhor para os transportes imaginários da arte?

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    Finalmente, uma correção: o título correto da coluna anterior (12/10) deveria ser "Conversa afiada", indicando a aversão de Graciliano Ramos à "Conversa fiada" (título com o qual a coluna foi publicada).

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    LIVROS

    REFLEXOS E SOMBRAS * * * *
    Livro ilustrado de memórias do desenhista que, nascido na Romênia, se transformou no cronista visual de Nova York.
    AUTOR: Saul Steinberg
    TRADUÇÃO: Samuel Titan Jr.
    EDITORA: Instituto Moreira Salles (2011, 184 págs.; R$ 45)

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    MAGRITTE * * *
    Um panorama da obra do pintor surrealista belga, que cria analogias formais absurdas e transtornos da lógica do olhar em situações cotidianas.
    AUTOR: Marcel Paquet
    TRADUÇÃO: Lucília Filipe
    EDITORA: Taschen (2000, 96 págs., R$ 42,90)

    manuel da costa pinto

    É jornalista e mestre em teoria literária e literatura comparada pela USP. Escreve aos domingos, a cada duas semanas.

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