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    Marcelo Leite

    Precisamos falar sobre a caatinga, o mais seco e brasileiro dos biomas

    26/09/2016 02h00 - Atualizado às 13h54

    Flávia Pezzini
    Área de caatinga localizada no Parque Estadual da Mata Seca, em Minas Gerais
    Área de caatinga localizada no Parque Estadual da Mata Seca, em Minas Gerais

    Como na sexta-feira (23) começou a primavera, vamos falar de florestas. Pensou Amazônia, mata atlântica, cerrado? Não, o assunto hoje é caatinga.

    Muita gente nem sabe que se trata de uma formação florestal, com árvores e arbustos que cobrem o terreno. Mais comum é pensar nela como um mato estorricado, pobre, lugar de pobreza e fome.

    Quem já esteve na caatinga depois das chuvas sabe que não é bem assim. Minha maneira de enxergar a "mata branca" (este o sentido da expressão em tupi) mudou durante viagem à serra da Capivara, no Piauí, duas décadas atrás, quando me deparei com um floresta toda verde.

    Essa capacidade de sobreviver a secas prolongadas como as do semiárido brasileiro e desabrochar quando volta a chover constitui o maior segredo da caatinga. Suas árvores e outras plantas têm adaptações para aguentar a falta de água, como no caso dos cactos.

    A caatinga vem a ser o único bioma exclusivamente nacional, mas não está sozinha entre as florestas secas das Américas. Do México à Argentina há várias delas, igualmente desprezadas e ameaçadas, como destacou a capa da revista "Science" desta semana.

    Entre os 64 autores do artigo figuram os brasileiros Flávia Pezzini, do Jardim Botânico Real de Edimburgo (Escócia), Danilo Neves, do Jardim Botânico Real Kew (Inglaterra), e Ary Oliveira-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais. Além do texto científico, o grupo lançou um vídeo em português, inglês e espanhol para explicar a importância desse tipo de floresta.

    Mata Seca

    O artigo destaca, por exemplo, que grandes civilizações americanas, como os astecas, buscavam seu sustento nesse ambiente. Cultivos tão importantes para a agricultura atual quanto milho, tomate, feijão e amendoim surgiram aí.

    A caatinga e suas primas latino-americanas, além disso, nada têm de pobres. Os 1.602 inventários botânicos consultados pelos autores do estudo registram a presença de 6.958 plantas lenhosas.

    Em alguns países restam menos de 10% da extensão original das matas secas, o que as põe entre as florestas tropicais mais ameaçadas do planeta. A caatinga ainda tem 53% de seus 828 mil quilômetros quadrados originais (um décimo do território nacional), onde vivem 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 de anfíbios, 241 de peixes e 221 de abelhas –além de 27 milhões de pessoas, claro.

    Com tudo isso, apenas 1,2% da caatinga está em unidades de conservação de proteção integral. Por exemplo, o Parque Nacional da Serra Capivara, que volta e meia fica arriscado de fechar por falta de verbas.

    Em contraste, a floresta amazônica ainda tem 80% intactos e 9,9% de seus 4.199 quilômetros quadrados sob proteção integral. Isso sem contar as 422 terras indígenas, que reúnem 1,15 milhão de quilômetros quadrados (23% de território amazônico), em geral com bom estado de conservação.

    Sim, é verdade, a mata atlântica e o cerrado também estão ameaçados, até mais que a caatinga. Mas nem por isso ela merece ser tratada como a prima pobre e feia. Precisamos falar mais dela, e bem.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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