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    Marcelo Leite

    Do nióbio à serrapilheira, mais adubo para a pesquisa nacional

    27/03/2017 02h00

    Lalo de Almeida/Folhapress
    Ipê amarelo em meio a região de floresta na Terra Indígena Sete de Setembro em Cacoal (RO)
    Ipê amarelo em meio a região de floresta na Terra Indígena Sete de Setembro em Cacoal (RO)

    Final dos anos 80, talvez 1987 ou 1988. Numa caminhada suarenta pela reserva Ducke, arredores de Manaus, aprendi com o visionário Antonio Donato Nobre o significado de "serrapilheira": camada fofa de detritos vegetais, sobretudo folhas, que recobre o solo pobre da floresta amazônica e sustenta sua exuberância alimentando raízes e sementes.

    Uma revelação, quase uma epifania: a mata aduba a si própria. Três décadas depois, dou com a palavra –e o conceito– no nome de uma iniciativa não menos desconcertante: Instituto Serrapilheira, a primeira entidade privada de fomento à pesquisa no país.

    A novidade foi espargida por Branca e João Moreira Salles sobre a terra dura em que claudica a ciência nacional. A linguista e o documentarista, de uma das famílias mais ricas do Brasil, criaram um fundo de R$ 350 milhões que deve render uns R$ 15-20 milhões anuais para investir em projetos de ciências naturais e matemática.

    O sobrenome está mais associado ao Unibanco, mas o grosso de sua fortuna também brotou do solo, mais precisamente do subsolo, com a exploração do mineral nióbio. Diante do patrimônio de João e Branca, na casa da dezena de bilhões de reais, pode parecer pouco separar R$ 350 milhões para uma causa bem-vista. Não é.

    Não é pouco fazer o que quase nenhum brasileiro rico faz. Nas universidades americanas, tropeça-se em prédios e institutos inteiros pagos por ex-alunos que se deram bem na vida (pouco importa se têm incentivos fiscais para tanto). Aqui, a Faculdade de Direito da USP viu retiradas as placas com os nomes de doadores que ajudaram a reformar algumas salas.

    Não é pouco contribuir para tirar todos os anos, que seja, 15 cientistas brasileiros felizardos do inferno burocrático em que vivem, se cada um for agraciado com R$ 1 milhão para gastar como quiser. Sem ter de preencher formulários que não fazem sentido, escrever relatórios que ninguém lerá ou reunir notas fiscais que vão dormir nalguma pasta poeirenta.

    Não é pouco vir a público para dizer que o objetivo da doação é "fertilizar a terra da ciência brasileira", que afinal já deu muitos frutos, ainda que nenhum Nobel. Cotejados com o bilionário orçamento anual da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), por exemplo, R$ 15 milhões por ano é fichinha; na paisagem estorricada do investimento privado em ciências naturais, é um maná.

    Há muitos seres pequenos –bactérias, fungos, insetos– que vivem na serrapilheira e realizam o trabalho incessante de decompor e devolver para consumo os nutrientes presentes na maçaroca vegetal. Sem eles não se ergueriam até o dossel da floresta nem floresceriam os ipês e os piquiazeiros, coisa muito bonita de ver.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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