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    Marcelo Leite

    Dieta frugívora, e não vida social, explicaria por que primatas evoluíram

    02/04/2017 02h00

    Christopher Sessums/Flickr
    Frutas

    O leitor com certeza já topou com explicações para a inteligência dos primatas com base na hipótese do cérebro social. Por ela, a quantidade de massa cinzenta evoluiu de passo com a complexidade da vida social.

    Um novo estudo, porém, vem colocar um grão de sal nessa teoria edulcorada. Alex DeCasien, Scott Williams e James Higham, da Universidade de Nova York, acreditam que a chave está na dieta.

    Não resta dúvida de que uma pessoa (ou um macaco) com maior capacidade de observação e de processar informações se dará melhor navegando na teia de favores e intrigas que compõe as sociedades primatas. Humanos que o digam, com tanta fofoca entre eles, agora amplificada pelas redes sociais.

    Embora aceita por muitos, a hipótese não contava com forte apoio quantitativo. DeCasien e colegas partiram para testá-la com medições numa amostra grande de espécies (142), o triplo da quantidade de macacos reunida nos maiores estudos até então publicados.

    Eles levantaram e tabularam três tipos de dado: tamanho do cérebro, tamanho médio dos grupos –como indicador de complexidade social– e elemento dominante na dieta. Na análise estatística, verificaram que não há correlação entre o volume dos miolos e o número de integrantes do bando de animais.

    Encontraram, por outro lado, uma forte associação entre alimentação baseada em frutas e cérebros maiores, na comparação direta com primatas que se nutrem principalmente de folhas. É o caso, entre outros, do cotejo entre macacos-aranha (frugívoros do gênero Ateles) e bugios (folífagos do gênero Alouatta).

    Seriam duas as razões evolutivas para a dieta de frutas favorecer complexidade cerebral. Primeiro, como encontrar frutas é mais difícil que topar com folhas, os primatas que dependem delas precisam exigir mais da memória e da capacidade de discriminação e navegação.

    Além disso, frutos superam folhas no aspecto nutritivo. Contêm mais energia, o que permite sustentar as necessidades de consumo nos cérebros maiores.

    A pesquisa de DeCasien, publicada na "Nature Ecology and Evolution", dá uma boa balançada na hipótese dominante, mas não chega a deitá-la por terra. Como aponta na mesma revista Chris Venditti, da Universidade de Reading (Reino Unido), as medidas utilizadas estão sujeitas a certa controvérsia.

    Tamanho do cérebro, para começar, talvez não seja um bom sucedâneo para medir inteligência. Seria preferível trabalhar com a parte do órgão mais diretamente associada com capacidades cognitivas, o córtex cerebral (fina camada externa de células nervosas, que nos humanos costuma ter de 2 mm a 4 mm), mas essas informações não são tão simples de reunir.

    Outro defeito está em tomar o porte do grupo como indicador de complexidade social. Entre chimpanzés, objeta Venditti, bandos podem ter de 2 a 20 dezenas de animais.

    Se a quantidade varia tanto numa única espécie, como extrair conclusões firmes da dispersão amostrada entre várias? Além disso, o tamanho do grupo não tem relação necessária com a quantidade de interações em seu interior.

    Pode-se concluir, no entanto, que o engenhoso estudo de DeCasien já deu frutos: indica novos caminhos para continuar investigando as fontes evolutivas da inteligência.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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