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    Marcelo Leite

    Retrocesso ambiental segue sucesso ruralista nos governos Dilma e Temer

    06/08/2017 02h00

    Caio Guatelli/Folhapress
    Em 2005, fazendeiro observa incêndio em parte da Floresta Amazônica dentro de propriedade privada
    Em 2005, fazendeiro observa incêndio em parte da Floresta Amazônica dentro de propriedade privada

    Bastaram 50 dias sem chuva em São Paulo para espalhar uma epidemia de tosse e problemas respiratórios. O reservatório Cantareira e outros estão em boa situação, mas restou evidente que uma seca pode ter outros efeitos adversos, além do desabastecimento de água.

    Países da Europa meridional e central enfrentam neste momento uma onda de calor –já apelidada de Lúcifer– que promete bater a de 2003, na qual morreram 35 mil pessoas, a maioria na França. Agora padecem moradores e turistas na Itália, Suíça, Hungria, Polônia, Romênia, Bósnia, Croácia e Sérvia.

    Quase quatro quintos do território de Portugal esteve sob seca grave ou extrema no mês de julho, a 11ª pior estiagem no país em nove décadas. Ainda ardem na memória dos portugueses o incêndio florestal na região de Pedrógrão Grande, que ceifou pelo menos 64 vidas na segunda quinzena de junho.

    Na Índia, Bangalore, um polo de alta tecnologia, sofre com a estiagem, que ameaça a distribuição de água. A região, que já teve centenas de lagos, conta com hoje 81 deles.

    Em agosto de 2012, informa reportagem de André Borges no jornal "O Estado de S. Paulo", o reservatório de Sobradinho (BA), o maior do país com seus mais de 4.000 km2, estava com 38% da capacidade preenchida. Aí principiou a sucessão de anos de seca que drenou a esperança do Nordeste. Hoje a represa tem 10% de reservação. O fluxo para irrigação reduziu-se a 550 metros cúbicos por segundo, o pior desde a inauguração em 1979.

    Outra reportagem de Borges indica que o rio Tocantins também está minguando. O lago da usina hidrelétrica Serra da Mesa se acha com meros 11% de seu volume original. Se não houver corte na vazão, estará ameaçada a operação de duas outros barragens geradoras a jusante, Estreito e Tucuruí.

    No caso brasileiro, as estiagens na Amazônia e no Nordeste estão associadas com anomalias na temperatura dos oceanos Atlântico e Pacífico, como o forte El Niño de 2015-16. E existe entre 35% e 55% de risco de que ele retorne no final deste ano ou no início de 2018.

    Outra hipótese, cada vez mais fortalecida, é que essas secas e ondas de calor devastadoras –além da própria intensidade e frequência aumentada de El Niños– sejam produto, ao menos em parte, do aquecimento global. Fazer essa atribuição de causa e efeito, contudo, é uma das maiores dificuldades vividas pelos estudiosos do clima.

    Três pesquisadores da Universidade de Connecticut (EUA) se debruçaram sobre a seca de 2016 na Amazônia. Amir Erfanian, Guiling Wang e Lori Fomenko concluíram que apenas o El Niño é insuficiente para explicar a intensidade do estresse hídrico enfrentado pela floresta equatorial no período, mais intenso do que o ocorrido nas recentes secas de 2005 e 2010.

    Os autores do estudo sugerem que devem estar em ação outros fatores para agravar a falta de chuvas, como o desmatamento (em alta nos últimos dois anos) e o próprio aquecimento global.

    Há sete e 12 anos, ganharam o mundo imagens de barcos encalhados nos rios amazônicos. Agora, ninguém parece ligar muito.

    A indiferença com tal retrocesso é diretamente proporcional ao sucesso da bancada ruralista em retroceder –nos governos Dilma e Temer– tudo que fora conquistado na área ambiental em anos anteriores.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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