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    Marcelo Leite

    Inteligência artificial tropeça no câncer ao estrear na medicina

    11/09/2017 02h00

    Divulgação
    Participantes posam após game show 'Jeopardy', vencido pelo computador Watson
    Participantes posam após game show 'Jeopardy', vencido pelo computador Watson

    A IBM tem grandes planos para seu supercomputador Watson no combate ao câncer: dominar esse mercado multibilionário com ferramentas de inteligência artificial. Mas as coisas não caminham tão bem para a subsidiária Watson Health, baseada em Cambridge, Massachusetts (EUA).

    Seu produto pioneiro, Watson for Oncology (Watson para Oncologia), foi devassado numa reportagem investigativa de Casey Ross e Ike Swetlitz para o boletim "STAT", do mesmo grupo que edita o jornal "Boston Globe" (aquele do filme "Spotlight"). A conclusão é que o Dr. Watson ainda está na fase elementar da oncologia, bem longe da revolução que o marketing da IBM prometeu.

    O supercomputador ficou famoso por ter vencido o show televisivo de perguntas "Jeopardy" em 2011. Acumula uma quantidade pantagruélica de dados para dar suas respostas –neste caso, propostas sobre quais tratamentos considerar para cuidar de pacientes com tumores.

    O hospital contrata o serviço e passa a alimentar Watson com os prontuários dos doentes. Aí a máquina sugere uma série de opções, como cirurgia, quimioterapia, radioterapia etc., classificadas em ordem decrescente de recomendação. Também oferece vários artigos científicos em apoio a cada uma delas.

    Nos Estados Unidos, só dois hospitais contrataram o Dr. Watson. No Brasil, pelo menos um (Hospital do Câncer Mãe de Deus, de Porto Alegre). No mundo todo, meia centena, a maioria na Ásia.

    Na Europa, algumas instituições confrontaram recomendações do computador com as de seus oncologistas e desistiram de embarcar na barca da inteligência artificial vendida pela IBM. Num hospital da Dinamarca, médicos e máquina concordaram sobre condutas em apenas um terço dos casos.

    Na avaliação de médicos europeus ouvidos por Ross e Swetlitz, as informações utilizadas por Watson são enviesadas, pois servem melhor para pacientes americanos do que para qualquer pessoa com câncer no mundo. Além disso, as diretrizes sobre quais tratamentos devem ser usados para cada tumor podem variar de país para país.

    A razão desse viés está no modo como Watson funciona. Não é a inteligência artificial da máquina que define quais informações da literatura médica levar em conta ao propor a conduta em cada caso particular. Essa curadoria está a cargo de um painel de oncologistas do Centro de Câncer Memorial Sloan Kettering, de Nova York, um dos mais prestigiados do mundo –mas não infalível.

    A reportagem conclui que a IBM deixou seu departamento de marketing solto demais na promoção do produto, que ainda estaria engatinhando. Não que ele seja inútil: na pior das hipóteses, economizará tempo de médicos assoberbados, que não precisarão se debruçar sobre toda a literatura relevante, recebendo-a em segundos do computador.

    (Isso, claro, se tiverem um computador com conexão decente à internet, o que para muitos oncologistas no serviço público do Brasil ainda parece um luxo.)

    Ninguém duvida de que a inteligência artificial um dia exercerá papel importante na formulação de diagnósticos e condutas. Mas tudo indica que ela servirá mais como apoio a decisões que seguirão de responsabilidade de médicos de carne e osso.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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