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    Marcelo Leite

    Petroleiras deveriam pagar a conta do aquecimento global

    25/09/2017 02h01

    Ricardo Nogueira/Folhapress
    Ressaca faz o mar avançar e fechar avenida de Santos; balsa também parou no litoral norte
    Ressaca faz o mar avançar e fechar avenida de Santos; balsa também parou no litoral norte

    O Brasil não viu ainda repetir-se em suas costas o inédito furacão Catarina (2004), mas cidades como Santos já vêm sendo castigadas por fortes ressacas, como as que atingiram sua orla em julho e agosto.

    Essas invasões de ondas poderosas se tornarão mais comuns com a elevação do nível do mar. Será preciso construir barreiras de contenção mais altas e resistentes, como as que estão em estudo para minimizar a erosão na Ponta da Praia.

    Nada que se compare, claro, com as centenas de mortes e o estrago de bilhões de dólares no Caribe e no sul dos EUA com a incrível sucessão de furacões desta temporada: Harvey, Irma, José e Maria. Porto Rico ainda está sem energia elétrica, e sua reconstrução levará anos.

    Quem paga essa conta hoje é o contribuinte, ou seja, todos nós. A elevação dos oceanos, no entanto, é fruto do aquecimento global, por sua vez causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural).

    Algumas das maiores empresas do mundo, que ganharam dinheiro a rodo com isso no século 20, não deveriam pôr a mão no bolso também para compensar os prejuízos que causaram?

    As prefeituras de São Francisco e Oakland, na Califórnia, decidiram que sim, conforme se lê em reportagem do jornal britânico "Independent". Seus procuradores entraram com processos na Justiça contra cinco Grandes Irmãs: British Petroleum (BP), Shell, Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips.

    O valor da indenização não foi fixado, mas as duas administrações municipais pedem que se constitua um fundo para fazer frente às obras de proteção de sua orla contra ressacas. Hoje elas preveem gastar US$ 350 milhões, mas a fatura da mudança do clima devida pelas petroleiras será de muitos bilhões.

    Se a moda pegar, e os juízes decidirem que são responsáveis, elas irão à bancarrota. Basta que todas as cidades costeiras do mundo as processem com o mesmo objetivo. Imagine o que aconteceria se os santistas se desencantassem com o pré-sal e se voltassem contra a Petrobras...

    O argumento de São Francisco e Oakland reza que as petroleiras sabiam do dano que seu produto causaria a populações do mundo todo –e nada fizeram para preveni-los. Ou melhor, fizeram bem o contrário: gastaram fortunas com grupos conservadores de negacionistas para que produzissem estudos e artigos de opinião semeando dúvidas sobre o elo entre atividades humanas e mudança do clima.

    Seguiram à risca a cartilha conspiratória escrita pela indústria do tabaco: negar, duvidar, desacreditar. Tudo para repelir, ou adiar ao máximo, a regulamentação e a responsabilização inevitáveis caso se estabelecesse o elo causal entre seu produto e a destruição de vidas e propriedades.

    A conta chegou, por enquanto na esteira de desastres não ressarcidos e que nada mais têm de apenas naturais. Irma e Maria alcançaram a categoria 5 –furacões 500 vezes mais destruidores que os de categoria 1– e varreram com essa intensidade nada menos que seis áreas costeiras separadas, em poucos semanas.

    Nos 165 anos anteriores, os contatos de ventos categoria 5 com litorais haviam ocorrido apenas outras 18 vezes, e nunca com mais de três vezes no mesmo ano, informa a revista ambiental "Grist".

    Irma foi o furacão mais forte já registrado. Desde que o monitoramento sistemático de furacões começou, há 166 anos, houve 33 na categoria 5, e 11 deles –um terço do total– nos últimos 14 anos.

    Acredite quem quiser que tudo isso faz parte da variação natural do clima da Terra. Mas saiba que poderá ter de pagar caro pela imprudência.

    marcelo leite

    É repórter especial da Folha,
    autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp).
    Escreve aos domingos
    e às segundas.

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