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    Marcos Jank

    Incoerência no comércio agrícola

    22/07/2017 02h00

    Paulo Muzzolon/Folhapress
    Colheita de soja em fazenda a cerca de 215 km do município de Paranatinga (MT)
    Colheita de soja em fazenda a cerca de 215 km do município de Paranatinga (MT)

    Com uma safra recorde de 240 milhões de toneladas de grãos e exportações beirando os US$ 100 bilhões, é notável o sucesso do agro brasileiro.

    O ministro Blairo Maggi tem liderado incansável batalha para ampliar o acesso dos produtos do agro brasileiro. Recentemente ele disse que o mercado externo é conquistado "na cotovelada e na botina".

    De fato, não é tarefa fácil. De um lado, países ricos e pobres protegem ferozmente os seus agricultores e agroindústrias com altas tarifas, barreiras não tarifárias e subsídios. Do outro, a oferta excedente de produtos agropecuários no Brasil não foi acompanhada por uma melhoria condizente dos sistemas de transporte, armazenagem e defesa sanitária.

    Um dos problemas mais críticos que o ministro enfrenta ao tentar abrir mercados é a mentalidade autárquica de autossuficiência que domina toda a economia brasileira, incluindo o agronegócio.

    O grosso do empresariado brasileiro tem a visão equivocada de que exportar é bom, mas importar é ruim. Alguns chegam ao absurdo de defender que a balança comercial deveria ser superavitária em todos os setores da economia, independentemente das suas vantagens comparativas.

    Empresas, sindicatos e associações de classe lutam contra qualquer tipo de abertura comercial, buscando com isso preservar o imenso mercado doméstico de que dispõem ou alegando que o "custo Brasil" impede a competição. O resultado é que somos uma das economias mais fechadas do planeta, em termos de importações sobre o PIB.

    E o agronegócio não é exceção. Basta observar nosso padrão de comércio no setor. Segundo levantamento do Ministério da Agricultura, a União Europeia lidera o ranking do comércio no agro mundial, exportando US$ 151 bilhões e importando US$ 157 bilhões em 2016.

    Em segundo lugar vêm os EUA, com exportações de US$ 149 bilhões e importações de US$ 147 bilhões.

    Em terceiro, a China, que exporta US$ 73 bilhões e importa US$ 111 bilhões e detém o maior deficit comercial do planeta.

    Em quarto lugar vem o Brasil, com exportações de US$ 72 bilhões e importações de apenas US$ 11 bilhões. Contamos hoje com o maior superavit comercial do planeta, o que à primeira vista pode ser visto como positivo, mas tem consequências ruins.

    Nossas restrições às importações são brutais no agronegócio. Parece inacreditável, mas nos últimos anos o Brasil impediu ou restringiu importações de cacau, café, banana, coco, borracha natural, camarões, laticínios e até carnes para processamento. Em alguns casos, permite-se a entrada de processados, mas não a de matérias-primas para adição de valor no país.

    Até produtos como o etanol —mercado global o qual lutamos arduamente para abrir com toda sorte de argumentos econômicos e ambientais— correm o risco de terem suas tarifas elevadas.

    Para exportar mais, é preciso importar mais, a exemplo do que fizeram todos os países que deram certo, se integrando nas cadeias globais de valor e ganhando competitividade. Além disso, nossos parceiros comerciais sempre exigem reciprocidade para abrir os seus mercados.

    O comércio é uma estrada de duas vias. Muitos mercados de alto valor para o Brasil continuam fechados porque o Brasil se recusa a importar pequenos volumes de produtos em setores que não conseguem ver que o mundo é definitivamente maior que o Brasil, ao menos no agronegócio.

    Não vou aqui discutir as razões de curto prazo que levam alguns setores a querer proibir importações. Elas sempre existirão. Mas no longo prazo nosso verdadeiro interesse é por maior abertura de mercados. Esse é o único porto seguro para o agronegócio brasileiro no longo prazo.

    É triste, mas boa parte das "cotoveladas e botinadas" a que o ministro se refere estão dentro de casa.

    marcos sawaya jank

    Especialista em questões globais do agronegócio. Vive em Cingapura.
    Escreve aos sábados,
    a cada duas semanas.

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