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    Mariliz Pereira Jorge

    Vai, gordinha!

    07/08/2014 02h00

    Me solidarizo muito quando cruzo com uma gordinha fazendo qualquer atividade física. Sei que ela odeia cada um daqueles minutos que não passam e cada gota de suor empapada na camiseta de tecido antibacteriano, que insiste em entrar nas dobras da barriga, das costas, entre os braços e o sutiã. Não basta ser gordinha, ainda tem que ficar parecendo um queijo provolone amarrado se desmanchando.

    Ela sofre porque não sabe se firma o abdome, se ajeita coluna, se empina o peito, se contrai a bunda ou se respira. Como alguém consegue fazer tudo isso e ainda respirar? Como alguém consegue fazer tudo isso e ainda se divertir.

    Observo a cena vindo em minha direção e quando ela passa, falo mentalmente: vai, gordinha. Mas quem precisa de um empurrão sou eu. Eu virei a gordinha.

    Sedentarismo é aquela coisa que só acontece com os outros. Nunca conosco. A gente enrola a gente mesmo. Anda meia hora três vezes em uma semana e passa um mês se escondendo do tênis. Tem a pachorra de preencher na avaliação médica que se exercita frequentemente. Até que o médico decreta sua sentença, se continuar vadia é hérnia na lombar.

    A gente não sabe como isso acontece. Deve ter sido de ontem pra hoje. Ainda ontem, eu corria meia maratona e não tinha nem unha encravada. Há um ano sinto dores em lugares que nem sabia que existiam. Achava que era falta de alongamento. É falta de vergonha na cara mesmo. Virei um burro sedentário, a gordinha por quem eu me solidarizava.

    A gente se agarra a desculpas infalíveis. Está quente demais. Está frio demais. É cedo demais. É tarde demais. Estou cansada. Estou com sono. Estou estressada. Estou sem tempo. Estou de mudança. Estou triste. Tenho um emprego novo. Estou namorando. Levei um pé na bunda. Fui demitida. Tenho um deadline. Preciso renovar o visto. Passar no sapateiro. Comprar super bonder. Meu tênis está velho.

    Mas é só preguiça mesmo.

    Quando digo que engordei sete quilos em dois anos, me chamam de exagerada. Pra quem eu conheço, e agora pra todo mundo, falo a real: pelada não está bom. Sou uma gordinha esperta, sei me vestir e parecer mais magra do que estou, mas sem roupa e em frente ao espelho não dá pra enganar ninguém. Comecei a tomar banho à luz de velas. Fica meio renascentista, inclusive no tamanho das ancas. Digo que é pra relaxar.
    Continuo me escondendo de mim mesma.

    Um amigo foge de gordinhas medindo não o tamanho da bunda, mas o do braço. Se tiver aparência e consistência de pãozinho, está gordinha. E ele não gosta de gordinhas. Está no direito dele. Eu não gosto de homem de regata. Dia destes tirei uma foto com umas amigas e tudo que aparecia na foto era meu braço de pãozinho. Quem sou eu pra não gostar de cara de regata?

    O corpo desmorona. A bunda cai, a pele fica flácida, os ossos desencaixam. Estou voltando, mas cadê a paciência. Quero andar uma hora, tomar banho e ficar magra. Tchau, gordinha. Gosto de ter pena de você desde que seja longe de mim. Mas a gordinha continua aqui sem arredar o pé. Nem pra me separar do sofá.

    Parei de pedir pizza, tenho comido mais sopas e saladas, vou pra cama mais cedo. Ando e faço pilates. Tudo muito chato. Eu adorava fazer esportes. Descobri que gosto muito mais de não fazer nada. Pode ser uma fase.

    Talvez a dor na lombar e a ameaça da hérnia me salvem de ficar gordinha pra sempre. Talvez não.

    mariliz pereira jorge

    É jornalista e roteirista.
    Escreve às quintas e sábados.

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