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    Matias Spektor

    Fortaleza

    19/03/2014 03h04

    O jogo de Putin na Ucrânia cria uma oportunidade para a doutrina brasileira de política externa.

    Explico.

    Um dos pilares de nosso pensamento diplomático é a tese segundo a qual a concentração de poder nas mãos dos Estados Unidos é péssima, pois torna o sistema internacional instável, injusto e empobrecido.

    Basta lembrar de George W. Bush invadindo o Iraque sem porquê.

    Na concepção brasileira, o mundo seria mais estável, justo e afluente se o poder fosse mais bem distribuído entre as nações. No entanto, como esse modelo poderia descambar para uma competição desenfreada, a diplomacia brasileira especifica: queremos uma "multipolaridade benigna".

    O esquema seria "benigno" por ter amparo em organismos multilaterais como a ONU e por promover a justiça global com políticas redistributivas favoráveis aos países mais fracos e pobres.

    Até aí, tudo bem.

    Só que o argumento oficial nunca diz nada a respeito do mecanismo central de um sistema multipolar estável: o chamado "concerto" entre as grandes potências.

    Num mundo de muitos centros de poder, a concertação e a acomodação entre os atores mais relevantes é o motor da coexistência pacífica.

    Para emplacar sua visão de ordem global, o Brasil teria de dizer algo a respeito da natureza desse concerto.

    O silêncio vigente até agora é natural. Durante os longos anos da Guerra Fria, nossa diplomacia dedicou-se a denunciar o concerto entre as superpotências como conluio para congelar o poder mundial e enquistar o Brasil na periferia.

    Agora, porém, nossa posição no sistema mudou. Pela primeira vez, o Brasil está no clube de países que importam. Não por ser belo nem forte, mas porque em temas como finanças, comércio, mudança do clima, livre navegação, cibersegurança e inclusão social não há solução durável sem ele na mesa onde terá lugar a repactuação.

    Por isso, o que ocorre hoje na Ucrânia nos afeta de forma direta: de repente, há urgência por princípios e métodos de concertação que possam garantir a estabilidade no século 21.

    Ainda falta muito para que um novo ordenamento ganhe contornos definidos. Mas a negociação já começou, e é hora de transformar a "multipolaridade benigna" em conceito operativo de nossa politica externa.

    Afinal, forças poderosas já empurram na direção oposta. No mês que vem, por exemplo, a influente revista "Foreign Affairs" repetirá a ideia fácil, porém falsa, de que não há acomodação possível, pois o mundo estaria dividido de forma irreconciliável entre países autoritários (Rússia, Irã e China) e uma suposta "liga das democracias".

    O Brasil tem algo valioso a dizer sobre o tema, que cada vez mais afetará seus interesses fundamentais.

    Eis aí um assunto que animaria de verdade a cúpula dos Brics daqui a quatro meses, na cidade de Fortaleza.

    Para entender como um concerto multipolar começa, é imperdível a leitura de "Ritos de Paz", de Adam Zamoyski (US$ 8,80 no Kindle).

    matias spektor

    É doutor pela Universidade de Oxford e ensina relações internacionais na FGV. Escreve às quintas.

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