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    Michel Laub

    Tipos intelectuais, 2014

    14/03/2014 03h54

    — Destaque DAS humanidades ou da ciência que vira um idiota quando o assunto é política.

    — Crítico literário que, ditando todo tipo de regra sobre como a prosa alheia deve ser, escreve em prosa ilegível.

    — Autor de best-seller de crítica: irmão torto do best-seller de público, usa uma fórmula certeira para agradar a universidade.

    — Humanista que, 50 anos depois do Golpe de 1964, sem ter parentes ou amigos na linha dura, acha que identificar crimes do passado possa ser ruim para o Exército ou para o país.

    — Humanista que chama o Brasil atual de "suposta democracia".

    — Sócio de consultoria econômica que faz previsões sobre os mercados onde seus clientes atuam.

    — Ex-jornalista notório (em vários sentidos) que abre blog para comentar a imprensa.

    — Tuiteiro que faz piadinha (do tipo #classemediasofre) com vítimas de telefônicas, bancos, companhias aéreas e operadoras de TV, a quem não resta nada a não ser reclamar —de forma algo ridícula, reconheço— nas redes sociais.

    — Escritor iniciante que procura escritor mais velho e, não tendo o próprio livro lido e elogiado num prazo que varia de poucos minutos a algumas décadas, passa a atacar este verme decadente.

    — Escritor mais velho que só elogia livro ruim em privado, nunca por escrito, porque é verme decadente e hipócrita, mas não é burro.

    — Desavisado que resolve entrar em debate sobre um dos Grandes Temas Proibidos (feminismo, por exemplo) e, antes de ser chicoteado, apedrejado e ter as feridas cobertas de sal (com razão: quem mandou?), lembra que nem toda generalização é justa, há pessoas boas no mundo e, além disso, é a favor dos direitos de grupos historicamente oprimidos —"inclusive pertenço a um deles"— e também da cura do câncer.

    — (O colunista gostaria de declarar que se enquadra em vários itens desta lista. Ele sabe —não precisam ficar nervosos, amigos— que tem defeitos e um dia acabará debaixo da terra e não será lembrado por ninguém).

    — Formado em geografia ou letras, mas convicto ao falar de nuances do direito constitucional.

    — O contrário disso: técnico de qualquer área —finanças, urbanismo, administração pública— que só consegue enxergar a dimensão técnica da vida.

    — Cronista de costumes que fala das "relações voláteis de hoje" ou variação do conceito, que parece ter a ver com a dificuldade de amar ou fazer amigos verdadeiros na solidão das grandes cidades (tecnologia desumanizante, trabalho que aliena, comida congelada).

    — (O item anterior atualiza o tipo descrito numa crônica de Nelson Rodrigues, 1967: "Um sociólogo que liga tudo à epopeia industrial. Se a galinha pula a cerca do vizinho, se o caçula tem coqueluche, se usamos cabeleira à Buffalo Bill —está explicado. As coisas acontecem, e só acontecem, porque o Brasil se industrializa".)

    — Juiz seletivo de humor: só é engraçado quando concorda com o que pensamos.

    — Juiz seletivo de vaidade: por mais que passe o dia discutindo obsessivamente com adversários reais e imaginários, são os outros que se levam a sério demais.

    — Os que usam "eminentemente político" em vez de "político", ou "lógica do capitalismo" em vez de "capitalismo".

    — Os que gostam de transformar substantivos em verbos ("a obra problematiza a questão") e verbos em substantivos ("a obra trata do próprio fazer artístico").

    — Plateia que, em transmissão de Oscar sem legenda, ri para mostrar que entende a língua.

    — Plateia que, na estreia da peça de ator amigo, ri alto para dar uma força.

    — Teórico de restaurantezinho.

    — Nostálgico de algo que nunca houve: respeito pela coisa pública, arte elevada que já nasce elevada, Rio de Janeiro cordial e lírico.

    — Integrante eterno de centro acadêmico.

    — Vanguarda de combate às regras de interpretação de texto.

    — Poeta corajoso: "Não participo de panelas".

    — Poeta, romancista, músico, dramaturgo, cineasta, fotógrafo, dançarino ou artista plástico que leva a coragem ao limite do permitido em nosso tempo, doa a quem doer, ao revelar: "Também não faço o jogo da mídia e dos poderosos".

    michel laub

    Escreveu até julho de 2015

    É escritor e jornalista. Publicou seis romances, entre eles "Diário da queda" (2011) e "A maçã envenenada" (2013).

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