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    Patrícia Campos Mello - Patricia Toledo de Campos Mello

    O 'soft power' e a hipocrisia dos EUA

    25/10/2013 03h00

    Grande parte do debate nos Estados Unidos sobre os vazamentos de Edward Snowden (NSA) e Chelsea Manning (ex-Bradley Manning --Wikileaks) centrava-se na "segurança nacional" e em como a revelação desses segredos seria uma ameaça à defesa dos EUA. Ninguém havia perdido muito tempo discutindo o que esses vazamentos significariam para a política externa dos EUA. Mesmo depois de a presidente Dilma Rousseff cancelar sua visita de Estado a Washington, o assunto não foi grande destaque.

    Agora parece que finalmente o presidente Barack Obama e outros integrantes do governo dos EUA estão se dando conta do estrago.

    A reação da chanceler alemã Angela Merkel, que supostamente teve seu celular grampeado pela NSA, foi um choque de realidade. Ela exigiu explicações de Obama e convocou o embaixador americano em Berlim. A chanceler teria dito que "entre amigos próximos e parceiros, coisa que a Alemanha e os EUA têm sido há décadas, não pode existir vigilância das comunicações de um chefe de Estado; isso é uma quebra de confiança grave, precisa parar imediatamente".

    A Casa Branca deu uma resposta Mandrake, dizendo que as ligações da chanceler não estavam sendo monitoradas e nem seriam monitoradas no futuro --mas silenciou sobre o passado.

    Tudo isso aconteceu menos de 48 horas depois da saia justa com o governo francês, também espionado --Obama também teve de se explicar ao presidente da França, François Hollande.

    Um artigo interessante na próxima edição da revista "Foreign Affairs", de novembro e dezembro, afirma que a maior ameaça representada por "vazadores" como Manning e Snowden é "solapar a habilidade de Washington de agir de forma hipócrita e se safar".

    "A hipocrisia é central para o 'soft power' de Washington --para sua habilidade de fazer com que outros países aceitem a legitimidade de suas ações --embora poucos americanos tenham noção disso. Os liberais (de esquerda) tendem a acreditar que outros países cooperam com os EUA porque os ideais americanos são atraentes e o sistema internacional liderado pelos EUA é justo. Os realistas podem ser mais cínicos, mas se eles sequer pensam na hipocrisia americana, acham que é irrelevante. Para eles, o poder bruto de Washington, não seus ideais, é que encoraja outros países a se juntarem aos EUA.", dizem os autores Henry Farrell e Martha Finnemore, professores de relações internacionais da George Washington University.

    Os EUA não são os únicos hipócritas, admitem os autores, mas a hipocrisia de Washington importa mais, porque o mundo de hoje segue uma ordem construída pelos EUA e legitimada pelos ideais liberais (FMI, Banco Mundial, OMC).

    "E esse sistema precisa de hipocrisia como lubrificante", dizem.
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    Para assegurar que a ordem mundial continua vista como legítima, os americanos precisam proclamar lealdade aos valores liberais, não podem impor hegemonia somente através de força.

    Só alguns exemplos de hipocrisia citados pelos autores --Estados Unidos pregam as virtudes da não proliferação nuclear e tentam forçar alguns países (Irã) a abandonar suas ambições nucleares, mas se fazem de mortos quando o assunto são as capacidades nucleares de Israel; falam na importância da disseminação da democracia, mas quando os militares do Egito derrubam o governo, emudecem e não chamam o golpe de golpe.

    "Como os vazamentos recentes revelam, Washington não consegue seguir de forma consistente os valores que alardeia. E esta falta de conexão cria o risco de outros países acharem que essa ordem liderada pelos EUA não é legítima."

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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