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    Patrícia Campos Mello

    A arte anti-islâmica no Irã e os aiatolás brasileiros

    03/11/2017 02h00

    O turista que entra no salão principal do Museu de Arte Contemporânea de Teerã se depara com os indefectíveis retratos dos aiatolás Khomeini e Khamenei, presentes em todos os prédios públicos do país.

    Neste caso, os dois líderes islâmicos observam uma escultura-móbile de Alexander Calder flutuando acima de uma obra que representa um "espelho" feito com petróleo (Matéria e Mente, de Noriyuki Haraguchi).

    O simbolismo dessa cena é apenas um aperitivo para o tesouro escondido no museu, que tem a maior coleção de arte do século 20 fora do Ocidente. São 1.500 obras europeias e americanas e 1.500 obras iranianas.

    Atta Kenare - 20.nov.15/AFP
    Visitantes observam quadro de Francis Bacon no Museu de Arte Contemporânea de Teerã em 2015

    O museu foi construído dois anos antes da Revolução Islâmica que levaria o aiatolá Khomeini ao poder, em 1979. Idealizado pela imperatriz Farah Diba Pahlevi, mulher do antigo xá Reza Pahlevi, reúne centenas de obras de Monet, Gauguin, Pissarro, Toulouse-Lautrec, Van Gogh, Rodin, Picasso, Braque, Jackson Pollock, Rene Magritte, Robert Rauschenberg, Jasper Johns, além de várias obras de grandes artistas iranianos como Mohsen Vaziri Moghaddam e Faramarz Pilaram. O valor da coleção é estimado em US$ 2,5 bilhões.

    Quando o aiatolá tomou o poder, um funcionário do museu guardou todas as obras ocidentais em um porão, para preservá-las da fúria revolucionária. Khomeini baniu filmes e música ocidental, dizia que a depravação do Ocidente havia contaminado os países muçulmanos.

    Essas obras ficaram no porão do museu, juntando pó, até 1999, quando, pouco a pouco, passaram a ser exibidas. Durante algumas semanas por ano, o museu exibe algumas poucas obras ocidentais ao público.

    Com um grupo de jornalistas convidados pelo governo iraniano, pude ver obras-primas como "Natureza morta com estampa japonesa", de Paul Gauguin, "Homem reclinado com escultura", de Francis Bacon, "Sienna, laranja e preto no marrom escuro", de Mark Rothko e um quadro da "Série do Indígena Americano", de Andy Warhol.

    Mas algumas obras jamais serão vistas pelo público, por serem consideradas anti-islâmicas.

    Segundo o responsável por relações públicas do museu, Hassan Noferesti, existem 15 "obras inadequadas para exibição" —quadros com nus, temática homossexual (homossexualidade é punida com pena de morte no país), e suposta pornografia.

    Hassan mostra no celular uma foto do quadro "Gabrielle com a blusa aberta", de Renoir, uma das obras proibidas. "Não podemos exibir esse quadro por considerações islâmicas", explica.

    No tesouro secreto da "arte degenerada" há também nus de Pablo Picasso e Edvard Munch e o quadro "Duas figuras deitadas na cama com acompanhantes", de Francis Bacon.

    Em 2005, um diretor mais rebelde exibiu essa obra de Bacon. O Ministério da Cultura e Orientação Islâmica rapidamente retirou a obra, considerada "homossexual".

    "Essas obras só são secretas para o público, mas alguns poucos 'VIPs' podem vê-las", diz Noferesti.

    *

    No Brasil, alguns aiatolás também tentam "proteger" o público da arte degenerada. Se não tomarmos cuidado, daqui a pouco um conselho supremo vai passar a decidir quem são os "VIPs" que podem ver essas obras secretas.

    patrícia campos mello

    Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

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