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    Pedro Diniz

    Antes de ser 'de periguete', bandagem de Léger guiou minimalismo dos 1990

    06/10/2017 18h51

    O advento da Aids encaretou o mundo e a moda. Como consequência, o minimalismo tomou lugar à frente da festa interminável dos anos 1980 com o manifesto de alfaiataria e monocromia etérea criada por Calvin Klein, 74.

    Foi nesse cenário que Hervé Léger descobriu uma brecha para levantar a bandeira —e muitas curvas— da sensualidade feminina.

    Quando criou o "vestido bandagem", no início dos 1990, o estilista, que teve sua morte anunciada em comunicado nesta sexta-feira (6), nem imaginava que a peça viraria símbolo do movimento periguete do início deste século.

    Costurado justo ao corpo e composto por várias tiras de tecidos unidas com corte matemático, quase sem costura aparente, o vestido colou nas supermodelos e, logo depois, nas mulheres que queriam mostrar um pouco mais de pele.

    Cindy Crawford foi uma das porta-vozes de Léger no final do século passado. Neste, foi a socialite curvilínea Kim Kardashian quem recolocou a criação do estilista nos sites de celebridades e nos tapetes vermelhos.

    O legado de Léger, no entanto, não se resume a bandagens enroladas no corpo das mulheres. Pouco se comenta sobre a habilidade que o estilista tinha de fazer panos se modelarem a diferentes silhuetas para reforçar proporções.

    Como disse a atriz Dita Von Teese, uma das clientes assíduas da marca, o designer criou "uma peça que destaca a beleza da mulher, e não tenta disfarçá-la".

    A funcionalidade da roupa só foi possível de alcançar porque Léger criou uma técnica de modelagem com vários metros de tricô sem cortes ou costura.

    As primeiras peças desse experimento viraram relíquias, e os donos da BCBG MaxAzria, que detêm o controle acionário da marca desde os anos 2000, tiveram de recuperá-las no eBay para reproduzir a fórmula nas coleções.

    Não faltam polêmicas envolvendo o "vestido bandagem". Assim como o "vestido envelope", de Diane Von Furstenberg, "Le Smoking" de Yves Saint Laurent, e o tailleur de Coco Chanel, a peça promoveu uma mudança de costumes e provocou a ira de alas conservadoras da moda.

    Por ter virado símbolo do estilo periguete e das subcelebridades, cujos guarda-roupas encheram os reality shows americanos com looks bandagem, a criação de Léger passou de obra-prima da tesoura a um pedaço de pano esquecível.

    Para completar o fiasco institucional ao qual a etiqueta foi submetida, em 2015 o então diretor da marca, Patrick Couderc, disse em entrevista que a roupa não deveria ser usada por gordas ou lésbicas.

    "Se você é uma lésbica e passa a vida usando calças, não gostaria de usar uma bandagem", disse o executivo, demitido logo depois.

    A morte de Léger acontece exatamente no início de um revival apoteótico da moda dos anos 1990, década coroada nesta última temporada internacional de desfiles.

    Não deve demorar para que o "bandage" ressurja nas vitrines, trazendo de volta com ele o espírito libertário do estilista e a sensualidade perdida nas tentativas das grifes de luxo de romantizar o corpo feminino com comprimentos mídi e tons rosados.

    pedro diniz

    É especializado na cobertura de moda, do mercado à cultura pop. Escreve às sextas

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